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Chefe do Laboratório 5G do Centro de Estudos em Telecomunicações da PUC-RJ explica as características desta nova tecnologia

Redação

Publicado

em

RC de Lamare/Arquivo pessoal

Por Rodolfo Haas

Smartphones são basicamente aparelhos que utilizam frequências eletromagnéticas para transmitir e receber voz, dados e vídeo. Quanto mais alta a frequência em que atuam, maior a capacidade dos aparelhos – e é por isso que as redes 3G mal conseguiam atuar com mensagens simples de SMS, e o 5G promete a capacidade de transmitir vídeos 3D ao vivo. Na teoria, portanto, basta ampliar a frequência com que os aparelhos atuam. Na prática, essa ampliação depende de uma série de avanços tecnológicos. E é por isso que o salto do 2G para o 5G se deu uma vez a cada dez anos, aproximadamente.

Rodrigo de Lamare é um dos principais pesquisadores brasileiros envolvidos com o salto do 5G, que, ao longo desta década que se inicia, deverá fornecer para as pessoas comuns conexões de internet até mil vezes mais rápidas do que o 4G. Professor de engenharia elétrica da PUC-Rio e da Universidade de York, ele chefia o Laboratório 5G do Centro de Estudos em Telecomunicações da PUC-Rio. Ali, uma equipe de 15 pesquisadores trabalha principalmente em duas frentes a decodificação dos dados e a mitigação  da interferência em transmissões com muitas antenas. O laboratório mantém intercâmbios e parcerias com centros de pesquisa da Inglaterra, da Alemanha, da França, da Escandinávia, dos Estados Unidos e da China.

Na entrevista exclusiva à equipe do movimento Docentes pela Liberdade (DPL), Rodrigo de Lamare explica as características da tecnologia 5G e apresenta o cenário geopolítico em que ela será instalada.

[Em tempo: A conversa com o professor faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na entrevista não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL.]

O que é o 5G?

Quando eu comecei nessa área, estávamos no sistema 3G. A cada década temos uma geração. A primeira geração, nos anos 80, a segunda nos 90, a terceira nos anos 2000, a quarta na década de 2010 e a quinta geração a partir de 2020. Dez anos antes começa a se pensar o que vai acontecer na geração seguinte. A cada geração você tem uma série de inovações. A primeira, por exemplo, era analógica. A segunda era digital, mas que nós não tínhamos muita transmissão de dados, tínhamos o SMS muito básico. A terceira começou a ter mais transmissão de dados, a quarta passou a ter vídeo, áudio, serviços de localização. Agora, o 5G vai multiplicar a capacidade de transmitir dados e prover serviços específicos voltados para a comunicação entre máquinas, transmissão de dados com baixo retardo e comunicação de longa distância para ambientes rurais.

Quais as vantagens do 5G?

A capacidade ampliada de utilizar dados vai permitir a conexão dos sensores e dispositivos que formam a Internet das Coisas. Teremos máquinas de pagamento, sensores, prédios inteligentes, sensores de monitoramento ambiental, porque o 5G permite fazer ajustes de acordo com o tipo de uso, seja o monitoramento de uma fábrica ou os games em altíssima resolução.

Teremos menos perdas de sinal e um menor consumo de bateria. Um dos problemas da 4G é o consumo de energia, e o 5G promete melhorar a eficiência energética. Vamos ter uma transmissão com baixíssima latência, de modo que você consiga fazer a manipulação de sensores, numa velocidade muito alta, o que também vai ampliar os usos na telemedicina.

Quando vamos começar a utilizar o 5G no Brasil?

O Brasil vai ver o início das licenças de 5G acontecer agora no final do ano, provavelmente vamos começar a usar no ano que vem. Nosso laboratório participou do desenvolvimento de um outro caso de uso, que é o alcance muito maior da conexão. Por exemplo, em Mato Grosso, temos um problema que é uma região imensa, com densidade populacional baixa, propriedades grandes. É comum que você numa fazenda tenha que usar comunicação por satélite, que é cara.

A rede 4G alcança 30, no máximo 40 quilômetros a partir da cidade. Além disso, você não consegue prover a comunicação, o que é muito ruim para o agronegócio e para a formação dessas pessoas. O 5G permite servir as pessoas num raio muito maior, de até 150 quilômetros. Esse é um grande diferencial do 5G, que vai beneficiar o interior do Brasil.

Como vai ser o 6G?

Ele vai continuar a oferecer taxas de transmissão ainda mais altas, mas deverá acrescentar um uso muito mais difundido da inteligência artificial. Provavelmente vamos ter novas formas de transmissão, como o uso de uma faixa de espectro de frequência em Terahertz.

Existe algum risco à saúde do uso intensivo dessas frequências?

O 5G fará uso de um número muito maior de antenas, que irradiam sinais eletromagnéticos, mas com um nível de potência mais baixo do que o 4G. O impacto na saúde das pessoas não é conhecido e deverá motivar estudos específicos envolvendo medições.

Quais os maiores desafios de desenvolver pesquisa em tecnologia no Brasil?

A primeira limitação é relacionada ao nosso nível educacional. Muitas pessoas chegam às universidades sem os conhecimentos básicos de matemática, física, português, inglês, para desenvolver ciência. Também temos limitações de recursos, número e valor das bolsas. Um aluno de mestrado recebe bolsa mensal de R$ 1500, no doutorado é R$ 2200. O jovem que estuda engenharia pensa duas vezes antes de fazer um doutorado, porque a vida nos grandes centros é cara e, se ele trabalhar com telecomunicações em empresas privadas, vai ganhar muito mais.

Quais as principais implicações geopolíticas do uso do 5G?

No final dos anos 90, quando eu terminei a graduação e começava meu mestrado, haviam muitos fabricantes disputando o mercado. Tínhamos talvez 20 empresas grandes que participavam do desenvolvimento e do fornecimento de equipamentos. Anos depois, com a chegada do 3G, houve um problema, os governos cobraram muito pelas licenças e as operadoras ficaram muito endividadas.

Aconteceu no Ocidente um grande movimento de fusão, de forma que hoje o Brasil, por exemplo, é majoritariamente atendido por três grandes fornecedoras de infraestrutura de comunicações. Há também uma desconfiança de algumas empresas, principalmente americanas, com a Huawei chinesa, em razão das suspeitas de que os aparelhos produzidos pela companhia são utilizados para praticar espionagem. Então o leque de opções para as empresas é cada vez menor.

O Brasil tem outro problema, o fato de que, com o apoio do governo e da mídia, na década de 2000 muitas empresas operadoras se fundiram, uma decisão que se mostrou catastrófica, porque gerou companhias endividadas e com menor capacidade de atender ao território nacional.

Essa entrevista foi publicada originalmente no site Terça Livre.

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