Doe um livro

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Ao conversar com as pessoas, de forma aleatória, sobre política, não raramente causa-me espanto o grau de analfabetismo político que nos assola.

Em experiências empíricas, sem qualquer método científico, percebo que as pessoas se informam, principalmente, pelo que chega a elas via establishment e decidem em que candidatos votarão através das campanhas eleitorais na TV, em meio à ironização das opções com as quais vão tomando contato. Ou seja, política não é levada a sério por nós, brasileiros.

Poucas são as pessoas que sabem o que é o espectro político, por exemplo, quanto mais a ideologia defendida pelo partido ao qual seu candidato pertence.

Isso é assustador e, ao mesmo tempo, esclarece os motivos de termos uma classe política como a nossa. Mas esse é um assunto denso, que faz parte do volume um de uma série de livros que lançarei na Amazon (3 volumes)…

Conjecturando sobre as origens desse problema, cheguei à desconfiança de que uma das causas é a falta de hábito de leitura do brasileiro…

Quantos livros você lê por ano? E seus amigos? Procure fazer essa enquete entre as pessoas à sua volta e acredito que terá algumas surpresas. E para ficar mais assustador, compare com o número de horas que você passa diante de redes sociais!

O problema da falta de hábito de leitura é antigo. Muitos brasileiros passam da fase do analfabetismo para a TV sem fazer um pitstop na biblioteca [1]. Mas de quem será a culpa? Será que é só da escola? Da família?

Em minha casa, desde bebê minha filha foi acostumada a manusear os livros de banho, passando pelos de pano e finalmente chegando aos de papel. Hoje, na pré-adolescência, é uma leitora voraz de quadrinhos e livros (inclusive em inglês, pois moramos um ano na Florida). Segundo a professora, é a maior leitora considerando as duas classes da série dela. Mas deixemos minha “corujice” de pai de lado e voltemos ao assunto principal. Baseado em minha experiência, arrisco a dizer que o papel da família é importantíssimo no desenvolvimento do hábito de leitura, sendo talvez até maior do que o da escola.

E por falar em escola, concordo com o que diz Zoara Faila, do Instituto Pró-Livro, quando afirma que “os professores costumam indicar livros clássicos do século 19, maravilhosos, mas que não são adequados a um jovem de 15 anos”. Segundo Faila, “apresentado só a obras que considera chatas, ele não busca mais o livro depois que sai do colégio.” [1] É um fato comprovado na prática, pois durante décadas minha preferência de leitura se concentrava em livros técnicos.

Aposto que você deve estar pensando: “Ah… mas isso (leitura dos clássicos) é necessário, afinal, os estudantes precisam estar preparados para enfrentar os vestibulares e o ENEM”. Esse é um outro tema que por si já teria conteúdo suficiente para um outro artigo e talvez até algo mais. Mas quem de nós, próximo à época do vestibular, não foi socorrido pelos famosos resumos?

Leitura do mundo

Quando nos defrontamos com a pergunta: “Qual o país que mais lê no mundo?” somos impelidos a responder rapidamente que são os EUA (ao menos eu pensava assim). Mas é um grande engano, o protagonista é a Índia, que ocupa essa posição desde 2005 (dedicam 10h42min semanais para a leitura)! Os três postos seguintes são ocupados também por asiáticos: Tailândia, China e Filipinas. Em quinto lugar vem o Egito seguido da República Tcheca, Rússia e Suécia, que vem empatada com a França. Na sequência a Hungria, empatada com a Arábia Saudita.

Na América Latina, o país “mais leitor” é a Venezuela (que ocupa o 14º lugar), seguido da Argentina (18º) e o Brasil vem em 27º. As médias de leituras desses países são menores que a metade de tempo dedicado pela Índia. [2]


(Fonte: https://bvl.org.br/quais-sao-os-paises-mais-leitores-do-mundo/#prettyPhoto)

Em 2016, o IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião e Estatística) divulgou os resultados da 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil a pedido do Instituto Pró Livro, onde mostrou um aumento de 6 pontos percentuais no número de leitores no país. [3] Segundo a pesquisa do IBOPE, o brasileiro lê em média 2,43 livros e cerca de 30% da população nunca comprou um livro! [4]

O Prof. Harry Carvalho acredita que o motivo está no analfabetismo, que ainda é uma realidade que atinge 11,8 milhões de brasileiros (IBGE, 2017). [4]

Entre as principais motivações para a leitura das pessoas que foram ouvidas na pesquisa estão:

1º) Gosto pela leitura (25%)
2º) Atualização cultural (19%)
3º) Distração (15%)
4º) Motivos religiosos (11%)
5º) Crescimento pessoal (10%)
6º) Exigência escolar (7%)
7º) Atualização profissional ou exigência do trabalho (7%). [4]

Considerando esses dados, imagine então se o brasileiro teria paciência para ler um livro como “Os intelectuais e a organização da cultura”, do italiano Antonio Gramsci… E com isso a revolução cultural gramscista vai, a passos curtos caminhando sem que as pessoas percebam sequer que o PSDB é um partido de Esquerda, o que é facilmente provado sabe como? Lendo o estatuto do partido!

Novas ferramentas

A internet nos trouxe uma ferramenta auxiliar para aumentar o número de leitores, os eReaders. Os eReaders são aparelhos, ou apps, que permitem que possamos ler livros digitais. [3]

Apesar de eu concordar que os livros em papel tenham um “charme” difícil de ser superado, confesso que tenho cada vez mais aderido aos eBooks (inclusive em minha produção como autor). Além do mais, em minha estadia de um ano nos EUA, os eBooks foram uma ferramenta imprescindível, que me proporcionou uma bela economia em taxa de excesso de bagagem.

Enfim, como sempre digo, não importa a mídia de sua preferência, mas sim o conteúdo a ser consumido. Ler é o mais importante.

Custos

Se pesquisamos entre os motivos para o baixo índice de leitura do brasileiro o custo do produto, nos defrontamos com o “ciclo vicioso de Tostines” (*), pois como temos uma baixa tiragem de livros no país, os custos são maiores.

Enquanto outros países trabalham com tiragem de 10.000 exemplares, no Brasil trabalhamos com 2.000. [5]

Campanhas e desafios

Durante minha jornada como leitor (eu lia em fila de banco, em ônibus, na hora do almoço, na lanchonete da faculdade, na biblioteca, em sala de espera de médico, etc.) tive a oportunidade de encontrar diversas campanhas e sugestões criativas.

Uma delas foi a do escritor norte-americano Charles Chu, que experimentou e comprovou sua tese, em 2015, de que é possível ler 200 livros por ano! Ele conseguiu atingir esse número evitando as redes sociais e lançou a si mesmo o desafio de ler pelo menos 3 livros por semana. [6]

Ao analisarmos o hábito de leitura de um norte-americano, e os números, com atenção, percebemos que não é um feito impossível. Analise juntamente comigo alguns dados:

  1. Um americano lê de 200 a 400 palavras por minuto
  2. Um livro de não-ficção tem em média 50 mil palavras

Se cada livro tem 50 mil palavras, então, 200 livros terão (aproximadamente), 50.000 x 200 livros = 10.000.000 de palavras.

Num ritmo de 200 palavras por minuto, pode-se ler 200 livros em 50.000 minutos (pouco mais de 833 horas). Num ritmos de 400 palavras por minuto, pode-se ler 200 livros em 25.000 minutos (aproximadamente 416 horas). Resumindo, para ler os 200 livros da meta, leva-se de 416 a 833 horas.

Para efeito de comparação: um americano passa 608 horas por ano em redes sociais e 1642 horas por ano diante da TV… [6]

Que tal aceitar esse desafio?

Em conversas com amigos, não raramente eu ouvia sugestões como “precisamos de uma política pública…” ao que sempre me seguiam arrepios de aversão. Os Governos não conseguem administrar praticamente nada de forma eficiente e os custos destes projetos, além de caros são muitas vezes de objetivos, para usar um eufemismo, “questionáveis” como vimos acontecer no caso do Kit Gay, da gestão de Haddad, no MEC, distribuído nas escolas, recolhido e que agora volta por intermédio do governador de São Paulo em exercício, Márcio França (pais, fiquem atentos!).

E claro que o Governo não iria ficar por aí, tinha que marcar presença com propostas esdrúxulas através de nosso Legislativo, como a falácia da democratização através da lei do preço fixo do livro [7], descrita no PL 49/2015, da famigerada senadora Fátima Bezerra (PT-RN), em tramitação no Senado até o momento que esse texto era escrito. [8]

Particularmente eu tenho como ferramentas de incentivo à leitura alguns caminhos, que procuro, discretamente usar sempre que posso e que vou compartilhar aqui com você.

Atualmente minha casa está passando por uma grande reforma e tenho contato com os técnicos praticamente o dia inteiro. Durante as pausas para o café, procuro, semear o gosto pela leitura entre eles: um dia falo da importância, outro dia do que li num livro e achei interessante, etc.

Numa dessas conversas, ouvi de um deles que não tinha desenvolvido o gosto pela leitura. Então eu sugeri que ele escolhesse algum assunto que gostasse e diariamente começasse a dedicar cinco minutos para leitura e que fosse gradativamente aumentando esse tempo. Acredito que chegará o momento onde ele passará horas lendo sem perceber…

Outra estratégia que costumo usar é indicar livros que li, tanto nas redes sociais (gosto de usar o Skoob, uma rede social de leitores, gratuita) quanto pessoalmente, entre amigos. Sempre trocamos experiências de sugestões interessantes.

Locomover-se à bibliotecas é um caminho que não vejo como muito eficaz, pois com o acesso fácil às informações na palma da mão, dificilmente alguém irá, hoje, se deslocar para esse ambiente, ideal para leitura. Apesar de eu gostar de bibliotecas, confesso que há algum tempo não frequento uma.

Também é interessante adotar um horário específico fixo para suas leituras. Eu, por exemplo, não assisto novelas há mais de 30 anos (TV aberta há cerca de 20 anos) e costumo afirmar que elas são muito educativas: toda vez que começa um capítulo eu pego meu livro para ler.

Charles Chu, também sugere que providenciemos um ambiente favorável à leitura. Ele lembra que se você quer parar de usar cocaína, deixar o pó disponível pela casa não é uma boa estratégia. Crie um espaço livre de distrações tecnológicas, silêncio e conforto. [6]

A mesa do jantar é também um ambiente propício para comentar e refletir o que leu em um livro. Uma ótima alternativa à TV ligada e consolidação dos laços familiares.

Luciano Pires, em seu famoso site Café Brasil, fez uma interessante proposta de circulação de livros, que vale a pena conhecer: o “Iscas Intelectuais de Mão em Mão“. Não deixe de conferir.

E por fim, deixo aqui a sugestão de uma campanha particular, que uso há décadas e que publiquei em meu blog pessoal, simples de ser executado e que dá uma enorme satisfação pessoal ao observar o resultado à distância, anonimamente:

Campanha Doe um Livro

Pegue um livro que não consultará mais, escreva na primeira página dele o seguinte texto:


‘O país é feito por homens e livros’
(Monteiro Lobato)

Este livro está sendo deixado aqui para incentivar a leitura. Após desfrutar de seu conteúdo, deixe-o em outro lugar e continue com essa iniciativa. Assim, estaremos contribuindo para um mundo melhor.

Deixe-o em um lugar público (shopping, praça, restaurante, lanchonete, etc.).

Simples, prático e independente de qualquer estrutura… [9]

E para finalizar deixo aqui um desafio: leia meu primeiro artigo para o Conexão Política, o “Pedofilia, não!

É um artigo relativamente longo para os padrões de sites brasileiros, mas sobre um assunto que as pessoas ainda não perceberam a gravidade (constata-se isso ao verificar a baixa participação na Consulta Pública, no site do Senado Federal; links no artigo).

Após a leitura, divulgue e incentive seus amigos a ler e votar no “NÃO” (no site do Senado), pois apesar de não termos o poder de voto, temos o de pressão.

É com o desenvolvimento do hábito de leitura e participação política através da pressão de “nossos representantes” que, com as ferramentas atuais, evitaremos que o país se perca ainda mais nos conceitos dessa ideologia genocida que vem tomando espaço em nosso país e tentando manchar nossa bandeira de vermelho, não apenas no sentido figurado, como vimos recentemente…

(*) “Tostines vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais?”

Outros artigos do autor

 


[1] Por que o brasileiro lê pouco?
[2] Quais são os países mais leitores do mundo?
[3] Cresce número de leitores no Brasil
[4] Brasileiro lê em média 2,43 livros por ano, diz pesquisa
[5] Por que o livro é caro no Brasil?
[6] Ler 200 livros por ano é mais fácil do que você imagina
[7] O preço do livro ao redor do mundo
[8] PL 49/2015
[9] Campanha Doe um Livro

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