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Qual nível de impacto de nossa Medicina no mundo?

Redação

Publicado

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Por Matheus da Silveira Alferes Mulato. Estudante da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do DPL.

Revisão: Prof. Antonio Nunes Barbosa Filho.

A pesquisa brasileira voltada à saúde está, sobretudo, nas mãos do Estado¹, principalmente em universidades e em institutos públicos de pesquisa diversos. Nesse sentido é salutar e oportuno trazer aos cidadãos em gerá-lo conhecimento de como o tributo pago pelo contribuinte vem sendo investido neste campo, em especial sob a ótica do impacto da ciência nacional no mundo. Artigos que resultam de pesquisas de qualidade são referenciados, assim como as pesquisas que dão origem a estes são igualmente imitadas por todo o mundo, seja visando o desenvolvimento científico, seja para a melhoria dos sistemas de saúde locais. E este é um parâmetro universal para a qualidade da ciência desenvolvida em distintos países, sendo um indicativo indubitável de sua eficácia, pois é sempre desejável imitar o sucesso, não projetos infrutíferos.

Neste estudo, em razão do momento que vivemos em relação à Saúde Pública, nos dedicamos à análise de 4 subáreas da medicina, as que estão diretamente ligadas ao combate de uma pandemia ou a qualquer crise sanitária: Epidemiologia, Medicina Interna, Medicina Intensiva e Políticas de Saúde. O período em exame compreendeu os últimos 7 anos. Os dados usados para a elaboração deste artigo estão disponíveis no site Scimago², que reúne informações sobre os números das citações por artigo dos países. A metodologia foi a Rank Score (com notas de impacto de 0 a 10), comumente utilizada em estudos de cientometria, a exemplo do tratado por Dr. HermesLima³. Cabe salientar que este artigo não visa desqualificar pesquisas advindas de nossa academia. Pelo contrário, visa contribuir para que a mesma tenha sempre como exemplo norteador, isto é, como referência os melhores projetos mundiais, de modo que haja um crescimento concreto da ciência nacional e um efetivo retorno do investimento para o trabalhador brasileiro que sustenta nossas Academias e Institutos.

A partir dos dados do Quadro I acima, passemos à apreciação de cada uma destas áreas em particular. Vejamos:

1 – Políticas de Saúde: esta é definida como a subárea dedicada à formulação dos princípios, diretrizes e proposições gerais para a execução de serviços e gestão da saúde, voltadas para a consecução de políticas públicas para a saúde junto a uma determinada sociedade.

Um primeiro olhar para os números desta área nos levaria a crer que o desempenho do Brasil neste segmento, por lograrmos de modo estável uma alta posição no ranking do número de publicações, seria exitoso. Destarte esta condição, que nos leva igualmente a acreditar que há substancial investimento nesta, quando observamos o ranking de impacto deste total de publicações, verifica-se que o resultado alcançado é pífio, indicando um retorno precário frente ao investido. Enquanto, de um lado alçamos altos voos em relação ao número de publicações, de outro, há uma baixa relevância de nossos artigos. Além de relevante, esta constatação é preocupante.

Ao longo de toda a série histórica analisada no presente estudo, iniciada em 2013, a nota alcançada pelo conjunto de publicações nacionais relacionadas à Políticas de Saúde está no patamar de 1,0. Podemos inferir que a baixa qualidade dos estudos neste segmento tem reflexos diretos sobre a saúde ofertada aos cidadãos brasileiros, o que pode ser constatado pelo retorno, em diversos rincões do território de nosso país, de doenças outrora erradicadas4.

Em termos gerais, cabe observar no ano de 2019 – vida figura baixo – uma queda abrupta de nosso impacto científico. Ficamos, atrás, por exemplo, da Etiópia que no mesmo ano figurou na posição 173º no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)5, quase cem posições abaixo do Brasil. Infelizmente, este não é um exemplo único. É possível constatar que mesmo países com IDH mais modestos que o nosso conseguem lograr maior impacto científico, o que demonstra claramente não é o número de artigos que faz com a ciência desenvolvida em cada uma das nações seja valorizada pelo restante dos países do mundo.

Nota explicativa: Na figura acima, a primeira coluna indica o número total de publicações por país (qual o corte?) e a penúltima coluna indica o rank score ou fator de impacto deste total de publicações (seria interessante na imagem aparecer Portugal – que está cortado)

2 – Epidemiologia: é ramo da medicina que se dedica estudo dos diferentes fatores que intervêm no estabelecimento e na propagação de doenças, sua frequência, modo de distribuição, evolução e a definição dos meios necessários à prevenção junto às populações-alvo.

No tocante à área de Epidemiologia, podemos observar que, nos últimos 7 anos, há uma posição relativamente estável quanto ao total de publicações, porém com variações quanto ao impacto médio, sendo 2016um ano de forte destaque.

Podemos através dos números acima fazer quase uma relação matemática de proporcionalidade de quanto mais publicações menos artigos são citados, mas seria reducionismo de minha parte, ja que é necessária uma quantidade saudável de artigos para que indique que a excelência cientifica vem da disputa interna entre seus pares em suas respectivas nações, desta forma estamos observando com dados factuais de que ciência em um determinado país não precisa, necessariamente, dispor de mais recursos para produzir publicações de excelência.

3 – Medicina Interna ou Clínica Médica: é uma especialidade essencialmente cognitiva, uma vez que se dedica aos pacientes adultos de alta complexidade, por meio de tratamentos não-cirúrgicos, em ambiente hospitalar.

É também devido e salutar apresentarmos bons resultados em nossa ciência. A nota dos últimos anos nesta área animadora e, neste sentido, deve servir de exemplo para as outras disciplinas da medicina. Cabe salientar que, embora não tenhamos atingido resultados excelentes, as notas alcançadas, em sua disposição e tendência observadas no período em estudo, indicam consistência para aumento do impacto científico do conjunto de publicações.

O cruzamento da análise da posição do número de publicação versus impacto alcançado pelo conjunto destas, quando observado especificamente para o ano de 2018, demonstra cabalmente que, embora neste ano, a área tenha logrado a melhor posição da primeira variável (19ª posição), o que poderia ser erroneamente compreendido como ganhar mais destaque no cenário científico mundial, foi justamente neste mesmo ano em que foi alcançado o pior desempenho na segunda e mais importante variável – o rank score – atingindo apenas a nota 2,0, abaixo inclusive da média de desempenho do segmento nos demais anos (4,47, excluído o ano de 2018). Resta demonstrado, mais uma vez, que não adianta ter muitas publicações, uma vez que não há uma correlação linear entre estas variáveis.

4 – Medicina Intensiva: é a especialidade médica que presta suporte avançado de vida a pacientes com distúrbio agudo de alguma função vital.

A área intensivista é outra grata surpresa no tocante ao impacto científico, em especial por, no ano de 2013, ter alcançado uma excelente nota (8,5). Observa-se uma queda do rank score nos anos subsequentes, uma boa recuperação em 2016 e similar padrão de queda.

Nesta área, ao longo do período estudado, a posição referente ao número total de artigos publicados apresenta pouca variação, sendo relativamente uniforme. Entretanto, observa-se uma intensa variação no ranking quanto ao impacto resultante, o que reitera o já afirmado de que não é possível estabelecer uma relação direta entre estas variáveis, razão pela qual, somente em relação a esta segunda variável é possível afirmar categoricamente de que se trata de um bom indicador do resultado quanto aos investimentos realizados na produção dos artigos acadêmicos.

Considerações finais:
É devido salientar que o aqui apresentado não visou esgotar a discussão quantitativa das áreas brevemente analisadas. Buscou-se, tão-somente, ressaltar um aspecto importante para a avaliação da produção científica nacional em algumas áreas da medicina, uma vez que, conforme explicitado, as pesquisas que as originam são majoritariamente realizadas por instituições públicas e, portanto, financiadas com recursos oriundos dos tributos pagos por todos os cidadãos.

Como pudemos observar nas análises descritas, a correlação entre quantidade de publicações e impacto está e tem que ser descartada. Existe uma inegável distância entre publicar e efetivamente impactar. Ou seja, de ser capaz de influenciar, de obter adesão ao tratado em cada estudo, de modo isolado, ou em conjunto. Se ao contrário fosse, dentre as subáreas examinadas, a dedicada às Políticas de Saúde, que teve a maior quantidade proporcional em de número de publicações em todos os estratos analisados, atingindo e mantendo ao longo do recorte temporal estudado uma posição estável no top 10 entre os países que mais publicaram no tocante às temáticas abrangidas pela área – feito esse não alcançado pelas demais áreas estudadas neste artigo – não deveria ter as piores notas de impacto dentre todas. Diante do exposto, cabe perguntar se a ciência encontrada no conjunto dos estudos realizados é ciência de excelência, que traz inovações que se revertem em soluções, em tecnologias, em riqueza social ou representam não mais que um mecanismo de automação para gerar publicações?

Por fim, não poderíamos deixar de destacar que, apesar de nossas muitas limitações e carências em distintas dimensões da vida social, o Brasil continua a dedicar à educação, sobretudo na educação superior, um dos maiores percentuais de investimentos por PIB dentre uma vasta lista de nações. O investido por nosso país chega a superar ao de países desenvolvidos6. Nesta esteira, a nossa vigilância deve ser constante, incessante, pois a dependência ou independência tecnológica, o desenvolvimento econômico e social, ademais da qualidade da saúde de nossa população – vidas humanas – dependem diretamente do crescimento da qualidade de nossas pesquisas, em especial nos diversos segmentos da medicina. Infelizmente o saldo diante dessa perspectiva é negativo. Cobremos de nossos políticos e de nossas universidades uma pronta resposta para a melhoria de nossas pesquisas. Para tanto, tomemos como referência os caminhos que conduziram os países líderes em seus respectivos segmentos, pois – ao que parece – estes conseguiram lograr o êxito desejado.

Referências bibliográficas:
¹ https://bit.ly/2O9V3UR
² https://bit.ly/2ZWsRdw
³ https://bit.ly/3eWlwkE
4 https://bbc.in/2O4wmJt
https://bit.ly/2ZMOLzN
6 https://glo.bo/2DrEUYS

Agradecimentos:
Não poderia me furtar de tecer agradecimentos da pessoa que contribuiu de forma significativa no trabalho aqui feito que seria o professor Antônio Nunes, docente da escola de Engenharia da UFPE que  imiscuiu no trabalho o verdadeiro sentido da critica, que com baliza na ciência, permite avançar fronteiras nunca antes vistas, e também especialmente o professor Marcelo Hermes docente de Bioquímica da UNB que me introduziu na ciência cientométrica no qual o mesmo me provocou a fazer este artigo, muito valioso suas lições sobre nossas universidades.

[Em tempo: O artigo  faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na entrevista não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL ou Conexão Política.]

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