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O 2 de julho – Guerra de independência na Bahia 

Então o Brasil nunca teve guerra? A Bahia que o diga!

Julliene Salviano

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Então o Brasil nunca teve guerra? A Bahia que o diga! Não é para menos que em terras baianas comemora-se o 2 de julho com um feriado. O feriado estadual celebra a vitória das tropas baianas que expulsaram os portugueses de Salvador em 2 de julho de 1823, ou seja, a independência.

Por conta da Conjuração Baiana (1798), o sentimento de independência em relação a Portugal estava arraigado na população. E ao contrário do que se afirma, a independência não foi pacífica. Esta só ocorreu ao custo de muitas vidas e batalhas por terra e mar, de forma que o próprio Hino do estado afirma “ter o Sol que nasceu ao 2 de julho brilhado mais que o primeiro”.

A Revolução liberal do Porto, de 1820, ocasionou a convocação das cortes. Estas exigiam o retorno imediato do Rei D. João e de toda a corte para Portugal. Primeiro quis o Rei mandar o filho em seu lugar, mas a ideia foi rejeitada pelo mesmo, pois, sua esposa, a princesa Leopoldina Habsburgo o encorajou a permanecer no país. O soberano, muito a contra gosto, atendeu ao “pedido”, mas deixou em solo brasileiro seu filho D. Pedro e a nora D. Leopoldina. As cortes passaram então a exigir o retorno imediato de D. Pedro.

Em 9 de janeiro de 1822 ocorre o “Dia do Fico”.  Como consequência, em 11 de janeiro, 2.000 homens da principal guarnição militar portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, sob o comando Tenente-General Jorge de Avilez de Souza Tavares, ocuparam o Morro do Castelo, no centro do Rio. Queriam forçar o “insolente” príncipe a retornar para Portugal. Acentuou-se a cisão entre portugueses e brasileiros.

A Bahia dividiu-se, haviam conflitos entre brasileiros e portugueses. O local produtor de açúcar e de tabaco do Recôncavo, dominada pelos grandes latifundiários escravistas, desde cedo se manifestara pela causa brasileira, sob a liderança da vila de Cachoeira. Já a capital Salvador, estava ocupada pelas tropas do Exército português.

As vilas do Recôncavo baiano, sob a liderança da vila de Cachoeira, em cuja Câmara Municipal se instalou um governo interino, mobilizaram-se para expulsar as tropas portuguesas entrincheiradas em Salvador. O processo foi marcado por diversos incidentes em Salvador, entre os quais o assassinato, por soldados portugueses, da abadessa do Convento da Lapa, Sóror Joana Angélica de Jesus.

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D. Leopoldina já havia alertado D. Pedro, muito anteriormente, que chegaria o dia em que seria necessária a independência.

No dia 2 de setembro de 1822, na Quinta da Boa Vista, a regente D. Leopoldina assinara a Independência do Brasil (D. Pedro estava em São Paulo).

A Mártir da Independência

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Em fevereiro de 1822 os ânimos entre brasileiros e portugueses estavam muito acirrados. As tropas portuguesas estavam de prontidão, os marinheiros percorriam as ruas, fazendo provocações. Na madrugada do dia 19 ocorreram os primeiros tiros, no Forte de São Pedro, para onde acorreram as tropas portuguesas, vindas de São Bento. Salvador, então, transformou-se numa praça de guerra, e confrontos violentos ocorreram nas Mercês, na Praça da Piedade e no Campo da Pólvora.

As tropas portuguesas tomaram o quartel onde se reunia o Batalhão 1.º de Infantaria. Os marinheiros portugueses festejaram a vitória, invadindo casas e atacando pessoas. Um grupo de soldados tentava arrombar o portão do Convento da Lapa, onde, supostamente haviam se refugiado alguns revoltosos. Enquanto a Soror Joana Angélica ordenava às irmãs que fugissem pelos fundos, a fim de proteger a clausura e integridade das irmãs, a abadessa se colocou como último obstáculo entre o convento e a tropa lusitana.

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Ficando conhecida como a autora da famosa frase: “Para trás, bandidos! Respeitai a casa de Deus! Só entrarão passando por cima do meu cadáver!”, ela morreu aos 60 anos, atingida por um golpe de baioneta quando resistia à invasão pelas tropas portuguesas, tornando-se, assim, exemplo de bravura e a primeira heroína da independência do Brasil. A porta testemunha do sacrifício da freira está preservada e continua sendo a mesma que foi atacada pelos soldados até hoje.

A destemida

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Maria Felipa, pescadora, descendente de negros escravizados vindos do Sudão, natural da Ilha de Itaparica, citada no romance O Sargento Pedro, de Xavier Marques. Na luta pela independência do Brasil na Bahia ela comandou um grupo com cerca de 200 pessoas, entre índios tupinambás e tapuias, e 40 mulheres, lutaram contra os portugueses que atacavam a Ilha de Itaparica. Segundo relatos, esse grupo liderado por ela queimou cerca de 42 embarcações portuguesas. Mas, segundo ensinam nas escolas, não teve guerra.

Ela quase não é lembrada pela história oficial ensinada nas escolas.


A Guerreira da Independência 

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Os partidários brasileiros reuniram-se na cidade de Maragojipe, em novembro de 1822, e decidiram então que todos ficariam do lado de D. Pedro contra a coroa portuguesa. Proclamaram uma Junta Conciliatória e de Defesa, para governo da cidade, em sessão permanente, recebendo a adesão de muitos portugueses. Dentre esses brasileiros destaca-se Maria Quitéria de Jesus, nascida em Feira de Santana/BA.

Em setembro de 1822 a fazenda onde morava recebeu a visita de um emissário que visava recrutar voluntários para engrossar as fileiras das tropas. Ele descreveu a tirania de Portugal e a humilhação em submeter-se a ser governado por esse. Descreveu a grandeza e a felicidades que o Brasil poderia alcançar com a independência, falou das virtudes da Imperatriz Leopoldina e dos serviços prestados por D. Pedro ao país. “Senti o coração ardendo no peito”, disse Quitéria. Já seu pai preferia ser um súdito pacífico do lado vencedor.

Ela fugira da fazenda em que morava com a família e fora procurar a irmã Josefa, que era casada e vivia numa pequena instância. Esta, por sua vez, correspondeu ao patriotismo da jovem, dizendo: “Se não tivesse marido e filho, por metade do que você diz, eu me juntaria às tropas do Imperador”. Ela emprestou-lhe as roupas do marido José Medeiros para que se disfarçasse. Assumindo a identidade masculina sob o pseudônimo de José Medeiros, alistou-se no Batalhão de Voluntários do Príncipe, que estava estacionado na Vila de Cachoeira. Atuou no regimento de artilharia e foi alçada à posição de 1ª cadete pelo general Pedro Labatut. 

Segundo Maria Graham (que demonstrou grande interesse pela jovem guerreira em seu diário), consideram que por seu aspecto físico mais fraco ela deveria combater na infantaria. Em determinado momento o disfarce masculino foi revelado e foi ordenado que dessem a Maria Quitéria fardas de cadete com dois saiotes de camelão (tecido feito de pelo de cabra ou lã) ou semelhante e uma espada.

O comandante José Joaquim de Lima e Silva, relatou ao imperador as façanhas da baiana em ofício de 24 de julho de 1823:

“Ao grito da Pátria em perigo, desamparou seus Pais, assentou praça de Soldado, e pegou em armas para sua defesa. Esta mulher tem-se distinguido em toda a campanha com indizível valor, e intrepidez. Três vezes que entrou em combate apresentou feitos de grande heroísmo, avançando de uma, por dentro de um rio com água até os peitos, sobre uma barca, que batia renhidamente nossa Tropa. O General Labatut conferiu-lhe as honras de 1º Cadete, e como tal tem sido considerada no Batalhão nº 3 do Exército Pacificador”

Chegou a Salvador, em abril, a esquadra real comandada pelo Almirante Escocês Thomas Cocharme, bloqueando o porto. Sem alimentos e cercados os portugueses bateram em retirada na madrugada do dia primeiro. Já em 2 de julho de 1823, quando o exército libertador entrou em triunfo na cidade de Salvador, Maria Quitéria e seus companheiros de batalha foram saudados e homenageados pela população. Durante a batalha houve 150 mortes do lado brasileiro. Teve guerra no Brasil? Parece que não!

Após a guerra, em agosto, ela desembarcou no Rio de Janeiro e recebeu do Imperador a comenda da Ordem Imperial do Cruzeiro,  que também lhe concedeu um soldo vitalício de alferes.

“Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”, disse Dom Pedro I.

Maria Quitéria casou-se com Gabriel Pereira e teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Morreu em 21 de agosto de 1853 em Salvador. Foi enterrada com uma lápide anônima na igreja matriz da Freguesia de Santana do Sacramento. Quitéria é quase a “Mulan” brasileira, uma guerreira que disfarçada de homem lutou por seu país, que infelizmente, como parece ser tradição nossa, tem pouco ou nenhum valor nacional. 

É reconhecida, a ser primeira mulher numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras. Desde 1966 é a patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Em 26 de julho de 2018, teve seu nome incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, junto a Sóror Joana Angélica e Maria Felipa de Oliveira. 

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Gestora Pública, paisagista e assessora de imprensa.

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