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Filhas de Gulshan Abbas, médica chinesa uigur que desapareceu em campo de concentração na China, escrevem Carta Aberta a autoridades do Governo Chinês no Brasil

Thaís Garcia

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Irmã de Ziba à esquerda, a mãe desaparecida Dra. Gulshan Abbas e Ziba Murat. Foto: Ziba Murat/Arquivo pessoal

Os uigures são uma minoria étnica de origem turcomena que habita principalmente na Região Autônoma Uigur do Xinjiang (XUAR), no extremo oeste da China. A região de Xinjiang abriga uigures, cazaques étnicos, quirguizes étnicos e outros grupos minoritários tradicionalmente muçulmanos. XUAR é o governo regional de Xinjiang e está sob a governança do Partido Comunista Chinês (PCC).

Desde pelo menos 2016, o PCC implementou um programa abrangente de vigilância, detenção em massa e doutrinação comunista em Xinjiang, visando os uigures e outras minorias étnicas da região. A vigilância da China tem como alvo membros de grupos minoritários religiosos e étnicos, já que o governo comunista chinês trata quase todas as expressões de fé como um sinal de “extremismo” religioso ou separatismo étnico. Os alvos dessa vigilância são frequentemente detidos e sujeitos a vários métodos de tortura e “reeducação política”, ou seja doutrinação comunista. Segundo informações da Bitter Winter, desde pelo menos 2017, cerca de 1,8 milhão de muçulmanos foram mantidos nesses campos.

Recentemente, o governo comunista chinês implantou um sistema de computador auxiliado por Inteligência Artificial (AI) que criou registros biométricos para milhões de uigures na região de Xinjiang. O PCC usa sistemas de vigilância digital para rastrear os movimentos e atividades dos uigures, para incluir a pesquisa com quem eles interagem e o que leem, e usa esses dados para determinar quais pessoas podem ser “ameaças” em potencial. Segundo relatos, alguns desses indivíduos são detidos posteriormente e enviados para campos de concentração, sendo mantidos indefinidamente sem acusações ou julgamento. A plataforma de IA é um dos primeiros exemplos de governos que usam a IA para criação de perfil racial. Segundo a imprensa, a tecnologia procura exclusivamente os uigures, com base em sua aparência, e mantém registros de seus movimentos. A detenção em massa de uigures faz parte de um esforço das autoridades comunistas da China para usar detenções e vigilância baseada em dados para criar um estado policial na região de Xinjiang.

Foi nesse contexto que a médica uigur Dra. Gulshan Abbas (57 anos) desapareceu na China, depois que sua irmã, Rushan Abbas, em Washington, nos EUA, se manifestou contra as políticas do governo comunista chinês na região.

A médica aposentada, que trabalhava anteriormente no Nurbagh Petroleum Hospital, na capital regional Urumqi, desapareceu junto com uma tia em setembro de 2018 – dias depois que sua irmã Rushan Abbas participou de um painel de debates sobre a China no Instituto Hudson em Washington, expondo as condições no XUAR e as rede de campos de detenção em massa.

A detenção de Gulshan foi confirmada quase dois anos após seu desaparecimento, segundo Rushan. Uma funcionária chinesa han do escritório do Partido Comunista do hospital confirmou à Radio Free Asia (RFA) que Gulshan Abbas havia sido detida, apesar de não ter certeza do porquê ou para onde a médica aposentada foi levada. Rushan acredita que sua irmã e tia foram detidas como parte do que ela afirma ser uma tentativa de silenciá-la e interromper seu ativismo nos EUA, onde atua como diretora do grupo de exilados da Campanha pelos Uigures.

Nos 22 meses desde seu desaparecimento, membros da família de Gulshan Abbas, com sede nos EUA – que incluem dois outros irmãos e duas filhas – trabalharam incansavelmente para determinar seu paradeiro e o motivo dela ter sido alvo das autoridades.

As ligações para amigos, parentes e autoridades locais no XUAR renderam poucas informações, assim como várias cartas à Embaixada da China em Washington.

A filha de Gulshan Abbas, Ziba Murat, que desde a noite de 10 de setembro de 2018 nunca mais falou com sua mãe, fez uma grande campanha para encontrar sua mãe através das mídias sociais, e disse que não iria parar de trabalhar para encontrá-la e libertá-la. Ziba Murat também expressou preocupação com a saúde de sua mãe, observando que ela tem pressão alta.

Por essa razão, o Conexão Política entrou em contato com Ziba Murat, e ela nos enviou uma Carta Aberta à embaixada da China no Brasil, solicitando uma resposta das autoridades chinesas sobre o paradeiro de sua mãe e qual a razão para prender e deter uma pessoa tão fisicamente fraca por 22 meses.

Ziba Murat espera que as autoridades chinesas no Brasil possam esclarecer as perguntas da família de Gulshan Abbas. Ela também anseia que autoridades do governo brasileiro possam, de alguma forma, dar atenção ao caso de sua mãe, e colaborar na busca e libertação dela.

Leia na íntegra a Carta Aberta de Ziba Murat, filha da Dra. Gulshan Abbas:

Estamos escrevendo como as filhas da Dra. Gulshan Abbas, uma cidadã chinesa, (Gulixian Abasi, ID chinês # 650103196206122322) uma médica uigur que se aposentou. Há 22 meses, nossa mãe desapareceu no campo de concentração, também conhecido como “Centro de Reeducação” para os uigures. Como médica aposentada, intelectual, ela não precisa de reeducação, nem nunca cobrou nada. Ela é a pessoa mais carinhosa, gentil e compassiva. Para ela, ajudar os outros é uma obrigação, não uma escolha. É quase ridículo e irritável que um indivíduo como ela seja alvo de seu próprio governo.

Nossos repetidos pedidos e perguntas foram atendidos apenas com o silêncio dos funcionários do governo chinês. O governo chinês continua a ignorar nosso pedido com a desculpa de que “as informações serão fornecidas apenas aos familiares imediatos”. Todos os membros de sua família imediata estão nos EUA e não ouvimos nada. Não poder falar com ela tem sido angustiante. Não nos disseram onde ela está ou sua condição atual. Isso é especialmente angustiante devido ao recente surto de Covid-19 em Urumchi, pois esses campos são um terreno fértil para o vírus. Ela requer monitoramento e atenção médica consistente devido a inúmeras condições de saúde.

Como filhas, temos o direito de saber onde está nossa mãe e sua condição atual. Exigimos respostas imediatas às seguintes perguntas:

  1. Onde está nossa mãe, Gulshan Abbas?
  2. Por que ela está detida por 22 meses sem permitir visitantes?
  3. Como está sua condição atual? Ela está recebendo atenção médica por sua saúde e várias doenças? Essas incluem:

         i. Pressão alta
         ii. Enxaquecas recorrentes graves, dores nas costas imobilizadoras
         iii. Monitoramento regular de ambos os olhos submetidos a cirurgias

  1. Exigimos a sua libertação imediata e prova de vida. Uma chamada de vídeo na qual podemos vê-la e ouvi-la deve ser preparada imediatamente.

Apesar da agonia que isso levou a nossa família, nunca perderemos a esperança por ela, nunca deixaremos de lutar por ela até que ela volte a abraçar as netas. Lembramos respeitosamente as autoridades chinesas de que a função de um governo deve ser a de agir no melhor interesse de seus povos. Façam a coisa certa e nos dê as respostas que necessitamos.

Atenciosamente,

Ziba Murat

Assine a petição, neste link, para ajudar Ziba Murat a resgar sua mãe do campo de concentração.

 

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