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“Estamos matando uma geração de engenheiros, químicos e físicos”

Professor de Farmácia na Universidade Federal do Pará, Rosivaldo dos Santos Borges denuncia o baixo investimento na formação de carreiras de áreas técnicas no Brasil

Redação

Publicado

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Por Rodolfo Haas

Em seu livro recém-concluído, Qualidade Educacional e Inovação Tecnológica, o professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) Rosivaldo dos Santos Borges, de 52 anos, descreve a trajetória de sua família: “Sou filho de pai pedreiro, auxiliar de serviços gerais e técnico em radiologia em hospital público e mãe professora, secretária e diretora de escola de ensino fundamental”.

É também, prossegue, “neto de agricultores, auxiliar de serviços gerais e técnico de laboratório, em parte analfabetos e ensino primário ou técnico completo” e “bisneto de colonos, índios e escravos, todos analfabetos”.

Já Rosivaldo cursou graduação na área de saúde, mestrado em química e doutorado em biologia pela UFPA, além de pós-doutorado em química quântica e medicinal na Universidade de São Paulo. Fez uma passagem pelos Estados Unidos, onde foi pesquisador visitante de síntese de compostos bioativos pela Universidade Brigham Young.

Educado em família conservadora, o professor flertou com o pensamento de esquerda durante o ensino médio e a graduação. Rapidamente se decidiu por evitar disputas políticas dentro da universidade e focar no que é contratado para fazer: ensino e pesquisa. Nascido na cidade de Monte Alegre, próxima a Santarém, o professor vive em Belém, de onde atendeu, por telefone, à reportagem.

Na entrevista, Rosivaldo dos Santos Borges descreve os motivos pelos quais a produção acadêmica brasileira é, no geral, irrelevante em termos internacionais. E explica a origem de seu livro, que está pronto e deverá chegar às prateleiras das livrarias em poucos meses.

[Em tempo: A conversa com o professor faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na entrevista não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL ou Conexão Política.]

 O senhor foi de esquerda na juventude?

Comecei minha formação educacional básica voltado para a área agropecuária em Monte Alegre e dei sequência estudando contabilidade no ensino médio em Santarém. Mudei de área por influência dos profissionais de saúde do Exército, com quem tive contato quando prestei serviço militar. Os oficiais que atuavam com saúde eram dedicados e muito competentes. Como eu também gostava de química, optei pela área de Farmácia, embora minha família preferisse que eu fizesse medicina.

No ensino médio em Santarém, e depois na faculdade em Belém, convivi com a doutrinação ideológica em sala de aula. Comecei a gostar da esquerda. Entrei em contato com os diretórios acadêmicos e percebi que muitos estudantes preferiam ficar na faculdade e se tornarem militantes profissionais do que se formar. Comecei então a ver que aquilo não seria bom para mim. Os colegas esquerdistas eram pessoas que sempre planejavam muito, mas realizavam pouco. Sempre criticando, sem apontar um caminho produtivo para todos. Enfim, os resultados sempre beneficiavam o grupo, não o coletivo. Uma frase que eu sempre gostei muito é: eu quero ser parte da solução, não do problema.

A posição política conversadora atrapalhou sua carreira?

Eu leciono química farmacêutica e química medicinal, duas disciplinas que fazem a integração de conhecimentos de farmacologia, toxicologia, bioquímica, fisiologia, química orgânica, físico-química e tecnologia farmacêutica. Não é fácil o estudante transitar por todos esses campos. Por isso, o índice de reprovação da minha disciplina era alto, eu procurava trabalhar muito, mas sempre o culpado era eu, nunca o aluno, o projeto pedagógico, a falta dos conhecimentos prévios ou a infraestrutura do curso.

Sempre tentaram desconstruir minha imagem dentro da faculdade como um professor que complicava as coisas. No entanto, quando a disciplina acabava, era comum algum aluno me chamar reservadamente e dizer: “Queria pedir desculpa para o senhor, acreditei no que falavam nos corredores, e o senhor é uma pessoa diferente, humana e compreensiva”. Mas sabia que a maioria não teria coragem de se manifestar publicamente.

O senhor se sentiu perseguido pela direção da universidade?

Quando eu entrei na universidade, me disseram que havia dois grupos e eu teria que escolher um dos dois. E eu deixei claro que não queria participar de grupos, queria trabalhar. Queria concentrar minhas energias no laboratório que eu era responsável. Conclusão: fui atacado por esses dois lados. Fico pensando em quanta energia desperdiçada por esses projetozinhos de poder, essa disputa para dominar uma universidade, para tentar depois ser deputado ou vereador.

Se eu me portasse assim, estaria enganando a sociedade. Se eu entrei para ser docente, tenho que ser docente, afinal, é para isso que a sociedade me paga, e não para ser militante. A universidade é um centro de formação acadêmica, e não um centro de formação de políticos. A sociedade deveria estar atenta para isso, cobrar.

Eu até me aventurei em eleições internas, mas, acabando a eleição, eu imediatamente voltava para minhas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Mesmo assim, como gestor, fui o coordenador pelo estado do Pará da implantação da Rede Bionorte, um programa de doutorado em Biotecnologia e Biodiversidade, que envolve os estados que fazem parte da Amazônia Legal. Posteriormente, coordenei a proposta de implantação do mestrado em Química Medicinal e Modelagem Molecular, que visa selecionar e planejar por métodos de química computacional, modificar moléculas bioativas usando síntese química e avaliar a atividade biológica, tanto farmacológica, quanto toxicológica, visando a inovação terapêutica. Visite o local que eu trabalho e você verá que não precisa de perseguição direta, basta apenas tentar matar por inanição. O resultado é o mesmo.

Esse viés político interfere no ensino e na pesquisa?

Sim. O que eu vi na pesquisa brasileira foram altos investimentos em artes, filosofia, sociologia e preservação ambiental. Existem cursos de sociologia que têm praticamente um docente por aluno formado, ou mais. As universidades não sabem mais onde pendurar sociólogos, a ponto de se criar, na área de saúde, disciplinas como Medicina Social, Odontologia Social e Farmácia Social. Na minha faculdade, temos nove docentes de farmácia social e apenas três de química. Outras áreas que cresceram foram as de artes e de meio ambiente, biodiversidade e conservação.

Onde é que vai estar o país daqui a dez anos se esse perfil de investimento continuar? Nós vamos matar uma geração de engenheiros, de químicos, de físicos, de pessoas que vão saber manipular os elementos e fazer a transformação que o país precisa, seja no setor mineral, petrolífero, agropecuário e de insumos naturais.

Por isso o senhor escreveu seu livro?

Nos Estados Unidos, quando uma universidade pequena inicia suas atividades, o primeiro curso que ela cria é de química, para a pessoa entender de onde vêm os materiais, como você aplica o conhecimento no solo, na geoquímica, como processa ferro, alumínio, como se aproveita os recursos. Depois vão para a área petrolífera, de energia, depois vão para a área de alimentos, fármacos e cosméticos. Essa é a raiz de tudo. No Brasil, você começa uma nova faculdade abrindo vagas para direito e administração, serviços sociais, contabilidades e pedagogia. Sempre começamos com ciências humanas. Não que estas áreas não sejam importantes. Assim, a ideia do livro foi tentar uma mudança de visão. Se continuarmos fazendo o que estamos fazendo hoje, vamos ter o mesmo resultado daqui a 30, 40 anos. Estamos colhendo os frutos de um modelo que se instalou há 30 anos. Assim, precisamos de um novo modelo!

Essa falta de visão técnica tem impacto em momentos mais graves, como durante uma pandemia?

Ciência não se faz de forma consensual. Você busca resultados e os apresenta de forma independente se vai agradar A ou B. Se o resultado dá diferente, você cita o que deu diferente. Essa busca pela verdade, em toda a sua complexidade, se perdeu em parte da ciência brasileira. Na pesquisa, honestidade intelectual é tudo e honestidade ou você tem ou não tem. Você não precisa ser da área de pesquisa do autor para reconhecer um desenho experimental mal feito ou ver que o desenho de uma tese foi preparado para obter o resultado desejado, a pessoa já sabia o que queria quando foi buscar. Eu vi isso em muitos trabalhos sobre hidroxicloroquina.

 O que se pode afirmar, com segurança, neste momento, sobre a hidroxicloroquina em relação à Covid-19?

Eu fiquei particularmente preocupado com a postura de algumas pessoas durante a pandemia. Imaginem um médico que diz para o seu paciente: você tem uma doença grave, eu vou lhe passar um medicamento, mas ele não vai funcionar, pior, ele pode até lhe matar. Conheço uma centena de medicamentos que em altas doses matam. Então, três coisas são importantes de salientar.

Primeiro, em terapêutica, oferecer uma esperança é fundamental e o efeito placebo é real. Segundo, é preciso administrar o medicamento na fase correta da doença. Terceiro, o médico prescritor é a última pessoa junto com o paciente a saber se uma abordagem terapêutica está funcionando. Por exemplo, um paciente hipertenso pode não melhorar usando propranolol ou atenolol, pode ser que captopril ou enalapril também não tenham efeito, nem mesmo um valsartan também.

São diferentes mecanismos enzimáticos é uma dessas abordagens precisa fazer a diferença para aquele paciente. Assim, em uma abordagem terapêutica é preciso diversidade e opções, como escolher entre dipirona, aspirina, paracetamol, diclofenaco ou ibuprofeno para um quadro inflamatório. O médico vai escolher de acordo com sua experiencia clínica e os resultados obtidos em seus pacientes. Assim, os testes com um novo ou um velho medicamento nunca terminam, até que funcione de forma eficaz e segura para aquele paciente ou não.

A hidroxicloroquina é uma molécula surpreendente. Estudei anteriormente seu mecanismo antimalárico. Agora eu estudei os mecanismos antivirais, anti-inflamatórios e imunomodulador da cloroquina e dos seus derivados relacionados. O primeiro trabalho que estamos publicando é relacionado com a dureza molecular, ou os fatores moleculares relacionados com sua difícil metabolização, o que explicaria sua meia vida plasmática muito alta. Assim, podemos entender como é fácil eventos adversos e intoxicação em doses altas, por isso é preciso seguir os limites toleráveis de segurança.

No segundo trabalho estudamos como ela pode atuar no bloqueio de radicais livres, que são mediadores da resposta inflamatória. Os dois trabalhos estão prontos, estamos em fase de escrever. Estou estudando essa molécula para dar uma opinião técnica. Estudei inflamação e câncer quase que a vida toda, vejo claramente que esses mecanismos são importantes que merecem ser estudados.

Qual o caminho para melhorar a produtividade da ciência brasileira?

O problema é que estamos criando há anos uma cultura primitiva, de ciência grupal ou tribal. Talvez o Brasil seja o campeão de coautorias, nunca vi tantos trabalhos com tantos autores. Muitas vezes o pesquisador foi só a pessoa que conseguiu recurso para pesquisa. Passei por isso: “olha, você vem para o nosso laboratório, porque temos acesso ao fomento”. Mas aí você vai fazer todo o trabalho e vai ver os outros levar todo o crédito. Ou do tipo, “olha, você pode usar o equipamento do meu laboratório, mas tem que colocar o meu nome”.

Não vejo como esse sistema atual possa gerar coisas boas. Os pesquisadores em geral estão na zona de conforto. Ninguém é cobrado por desempenho real. Apenas pedimos mais dinheiro para o governo, sempre, e não aceita ser cobrado. No próximo governo, muda-se as presidências dos órgãos de fomento e diretorias, muda-se os nomes dos programas, mas os mesmos tipos de projetos continuam sendo aprovados.

Por exemplo, veja a quantidade de núcleos de estudos em meio ambiente, em sexualidade, em humanismo. A UFPA nunca se interessou em criar um núcleo de moléculas bioativas da Amazônia a fim de proteger os produtos bioativos de sua rica biodiversidade, mas criou núcleos para estudos de transgêneros, educação disso ou daquilo, de comunidades em situação de risco, de proteção disso ou daquilo.

Não que estas coisas também não sejam importantes, mas onde está a prioridade de buscar tecnologias capazes de ajudar no desenvolvimento regional? A verdade é que tentamos fazer tanta coisa ao mesmo tempo, que os recursos para inovação tecnológica chegam em uma diluição microscópica para a monumental tarefa de contribuir para o desenvolvimento local, regional e nacional.

Desse modo, talvez nunca sairemos de onde estamos e nunca chegaremos longe, para nos tornar competitivos. Gastamos muito tempo apontando problemas e pouco tempo elaborando soluções. Para mim, são as pessoas que mudam seu ambiente e sua condição de vida. As universidades capacitam as pessoas para isso. Enquanto isso não for possível, minha única solução é continuar fazendo meu trabalho. Conquistei o que tenho num laboratório humilde, sem muito recurso, não devo nada na minha carreira acadêmica.

 

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