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Coronavírus

Entrevista exclusiva com brasileira na Itália: os impactos do coronavírus que tomou o país como refém

Thaís Garcia

Publicado

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Imagem: Regina Aguiar e sua filha em Sestriere, Piemonte, estação de esqui em 18/01/2020.

A Itália está isolada do mundo exterior desde 10 de março. 60 milhões de pessoas não podem mais fazer o que normalmente fazem. A brasileira Regina Aguiar – que vive em Roncello, a 31 Km de Milão – também não; ela nos conta sobre os impactos do coronavírus que tomou como refém um dos principais destinos turísticos do mundo.

Não é fácil mudar hábitos, mas os italianos estão sendo forçados a mudá-los. Eles estão trancados, não podem mais fazer uma visita a um parente em outra cidade ou comer uma pizza em um restaurante com os amigos. Eles têm que ficar em casa, a menos que tenham um bom motivo para sair, como ir a um médico, se necessário, e podem fazer compras. O suprimento de comida é garantido, segundo o primeiro-ministro italiano.

Cidades como Roma e Milão nunca estiveram tão vazias. As lojas estão fechadas, ruas e calçadas desertas. Parecem cidades fantasmas.

Depois da China, a Itália é o país mais afetado pelo coronavírus. Mais de 12.462 infecções e mais de 827 mortes. O pânico ainda se espalha para as prisões, onde ocorrem fugas, rebeliões com vários feridos e mortos e funcionários que são feitos reféns. O caos nas prisões já superlotadas é completado pela pandemia que atingiu agressivamente o país.

Regina Aguiar é brasileira, formada em Letras e designer de interiores. Desde 2015, ela vive na Itália com o marido e uma filha, que são cidadãos italianos, e também com sua mãe.

Segundo Regina, o governo italiano informou os cidadãos que a Itália é toda ‘ZONA ROSSA’, ou seja, estão “lacrados”, desde ontem (10/03).

“Ninguém entra, ninguém sai, medida essa para conter a disseminação do vírus”, disse Regina Aguiar ao Conexão Política.

As informações são passadas diariamente, algumas em caráter de urgência, na tv, nos canais da RAI e outros, de acordo com Regina.

“Eu, particularmente, acompanho também o Telegram da minha cidade e vários jornais online”, disse a brasileira na Itália.

Regina disse que ainda é permitido o “trânsito essencial” das pessoas para mercados, farmácias, correio, por exemplo, porém sempre com uma carta de necessidade dessa locomoção, principalmente no âmbito entre as cidades.

“Essa carta base nos foi passada pela própria cidade (online) e também está disponível na mídia, e deve estar preenchida com o porquê da sua locomoção, no caso, qualquer um pode ser parado pela polícia que exigirá a carta e verificará se procede que o cidadão esteja circulando, caso contrário há pena de multa e até prisão”, disse Regina.

“Esse é o módulo de auto declaração usado para se locomover. Não sei se foi refeito porque esse é o primeiro que levava em consideração  a Lombardia e as províncias afetadas”, disse Regina, se referindo ao documento abaixo exigido pela polícia para a locomoção.

Documento enviado por Regina Aguiar ao Conexão Política

Mudança de hábitos

Há uma ordem do governo: FICAR EM CASA!

Regina mora a 50 km da região de Lodi, a 25 km de Bergamo, hoje a cidade mais afetada pelo vírus. Ontem (10), ela recebeu uma mensagem da cidade que havia suspeita de contágio de um morador.

“Acho que todos tivemos os hábitos mudados, principalmente porque cada dia parece que o vírus está mais próximo. Basicamente não se sai na rua, quando se sai todos os cuidados possíveis!”, disse Regina ao Conexão Política.

Regina conta que alguns mercados delimitaram o chão para estabelecer uma distância mínima de um metro entre as pessoas, outros estão limitando o número de clientes que estão dentro, isso também em farmácias, restaurantes e em algumas lojas.

A higienização mais frequente também está sendo estimulada, tanto o lavar as mãos quanto o uso de desinfetantes.

“Aqui temos o hábito de sair nos finais de semana, ir a uma cidade nova, um evento, um passeio, parque. Está tudo proibido agora…Eu não trabalho, mas minha filha e meu marido, sim, então a casa agora também é ‘home office’ para eles, e está assim em todo o país”, explicou Regina.

“Todos na Itália estão agora, na medida do possível, trabalhando em casa. Os empresários já estavam mantendo o mínimo de deslocamento que foi estagnado desde ontem (10/03)”, completou a brasileira.

Regina disse que não tem saído.

“Qualquer contato social está restrito, ficar em casa com os seus é o procedimento! Tudo deve ser evitado! Para se ter ideia: missas, casamentos e funerais, por exemplo, estão proibidos!”, disse Regina.

“Tenho evitado qualquer saída desnecessária desde o final de fevereiro, mas vejo alguns poucos (realmente poucos nestes últimos dias) andando de bicicleta (que é meio de transporte aqui) ou caminhando, às vezes com crianças ou cães, se há necessidade eu não sei”, disse Regina ao Conexão Política.

Regina estava esperando a visita de sua irmã que viria de São Paulo no final de maio e passaria um mês lá. Mas no momento, a brasileira disse que não sabe se a vinda de sua irmã será possível.

O marido de Regina havia programado uma viagem à Bélgica esta semana, mas foi cancelada.

“Minha filha é Designer de Interiores e trabalha para uma rede de hostels, um dos pontos é em Gênova, está em reforma, ela passava dias lá durante a semana, agora não mais”, disse Regina sobre a mudança radical no cotidiano da vida da família.

Dificuldades

Regina nos contou sobre as maiores dificuldades que a população na Itália está enfrentando por causa do coronavírus.

“Talvez seja manter a calma, porque paralelamente à situação de se evitar novos contágios e toda limitação imposta, vejo a bola de neve na economia do país que está parado efetivamente nessa semana”, disse Regina preocupada.

A família de Regina no Brasil também mostrou preocupações quando soube que a Itália havia sido isolada do mundo.

“Eles ficaram preocupados, principalmente porque minha mãe de 76 anos mora comigo, e, apesar de sadia, ela é o maior grupo de risco”, disse Regina que também se mostra preocupada com a mãe em idade avançada.

Regina não conhece diretamente alguém que tenha contraído o vírus, mas hoje (11/03) ela disse que faleceu o pai de uma colega de trabalho de seu marido, um senhor de 70 anos, saudável, que teve o teste positivo para o coronavírus no último sábado (07/03).

“É difícil não ter tido qualquer contato, mesmo que indireto, realmente é difícil”, explicou Regina.

Novas regras

De acordo com o decreto, você não pode viajar de uma província para outra na Itália. A polícia está nas estradas para verificar se você tem um motivo explícito. Se você não tiver um ou apresentar um falso, corre o risco de ser multado ou até mesmo ser condenado à prisão.

Tudo parece claustrofóbico, e durará pelo menos  até 3 de abril.

Segundo Regina, no geral, os italianos estão respeitando as novas regras para conter o coronavírus no país. Mas ela disse que sempre tem alguém que se acha imune ou acha que tem mais direitos ou emergências que outros.

“Com estes, a polícia tem agido com vigor!”, afirmou Regina.

Cenário apocalíptico

Horas antes da Lombardia ser “fechada”, Regina contou que houve uma correria aos mercados que foram rapidamente esvaziados.

“Foi meio apocalíptico de se ver, mas normalizou rapidamente. Por enquanto, não falta nada, o mesmo aconteceu essa semana nas outras regiões que também ‘fecharam’”, explicou Regina.

Regina disse que por estarem no inverno, houve uma dificuldade do italiano em discernir uma gripe sazonal do Covid-19, e uma certa descrença na gravidade da nova doença.

“Existe uma gripe geral na população que é sazonal, então temos um povo basicamente gripado, normal. Quando o coronavírus foi detectado, nos primeiros dias, acho que eram descrentes, agora não mais”, disse Regina.

“Eu creio que o coronavírus seja muito perigoso, e acho que o mundo deveria estar mais atento à pandemia que, se atingir o hemisfério sul, fará estragos muito maiores”, afirmou Regina.

Turismo

De acordo com Regina, a partir dessa semana o turismo na Itália, um dos principais destinos turísticos do mundo, “congelou”.

“É impossível manter as normas de segurança em locais públicos, hotéis, monumentos, museus, enfim, com turistas. Para se ter ideia, a maioria dos hotéis e afins estão fechados!”, explicou Regina.

Regina acredita que certamente as consequências serão sérias sem trabalho, sem dinheiro, e isso é válido para todo o país.

Brasil

Regina disse que está sendo muito difícil se proteger da contaminação do Covid-19 visto a ferocidade do vírus.

“Existem informações de pesquisadores chineses que o vírus se alcança 4,5 metros, que fica no ar por 30 minutos e que ainda pode sobreviver em madeira, vidro, metal, papel e tecidos por até 3 dias. Nesse embasamento, parece que qualquer precaução que usamos é irrelevante, sejamos positivos, boa sorte!”, afirmou Regina.

A brasileira espera que não haja surto no Brasil, mas, se houver, ela pede para que os brasileiros cumpram as medidas de contensão.

“Elas são primordiais, principalmente porque não teremos vacinas tão cedo”, disse Regina.

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