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Belga naturalizado brasileiro, o professor Jean-Marie Lambert (71) fala de sua trajetória acadêmica e perseguições que sofreu depois que se descobriu conservador

“Quando me distanciei da esquerda, passei a encontrar pouco espaço na universidade”

Redação

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Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Por Rodolfo Haas

Jean-Marie Lambert tinha 18 anos quando ocorreram as manifestações de Maio de 1968 na França. O espírito de rebelião daquele momento histórico marcou sua vida. “Embarquei no esquerdismo louco daquela época, botei uma mochila nas costas e fui viajar pelo mundo”, ele conta. Entre indas e vindas, Lambert estudou Ciências Econômicas na Universidade de Heidelberg, na Alemanha, antes de se instalar no Brasil em definitivo.

Cursou graduação em Direito pela Universidade Católica de Goiás em 1980, mestrado em Direito Internacional pela Universite Libre de Bruxelles, em 1983, doutorado em Ciências Políticas pela Université de Liège e 2005. Concluiu sua formação com um pós doutorado em Ciência da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). “O tema foi finanças islâmicas. O Alcorão não permite o empréstimo a juro. Minha tese explica os truques que os institutos bancários islâmicos realizam para conseguir cobrar juros e tapear Alá”, diz ele.

Adepto da linha política de esquerda até que veio a público o projeto “Escola Sem Homofobia”, do Ministério da Educação do governo do PT em 2011, Lambert, que é cidadão brasileiro naturalizado, decidiu se posicionar publicamente como conservador. Desde então, se aposentou das atividades docentes da PUC-GO, depois de ver negado seu projeto para desenvolver um curso de extensão sobre ideologia de gênero. A abertura para uma nova visão política ampliou os horizontes do professor, que nos últimos anos passou a produzir obras de referência, como Ministério Público para Rir e Chorar e Educação Unesco – A Clonagem das Mentes.

Na entrevista, concedida para a equipe do movimento Docentes Pela Liberdade (DPL) enquanto o professor finalizava um novo livro sobre os embates entre globalismo e cristianismo, Lambert relembra sua trajetória, descreve os ataques que sofreu desde que assumiu sua posição política e fala das perspectivas para o futuro.

[Em tempo: A conversa com o professor faz parte de um esforço do movimento Docentes pela Liberdade (DPL) em trazer pensadores competentes e capazes de agregar análises relevantes para o cenário nacional. As opiniões expressas na entrevista não reproduzem, necessariamente, as posições do DPL ou Conexão Política.]

Como o senhor veio parar no Brasil?

Sou originário da Bélgica. Fui educado em língua francesa, e ali fiz as escolas primária e secundária. Eu tinha 18 anos em 1968, quando estourou a rebelião estudantil em Paris, que me pegou em cheio. Embarquei no esquerdismo louco daquela época, botei uma mochila nas costas e fui viajar pelo mundo. Fui aos Estados Unidos, à África, à América Latina. Depois de uns dois anos, parei na Alemanha, onde estudei ciências econômicas.

Na Alemanha, fiz amizade com uma turma de estudantes brasileiros, vindos de Anápolis, Goiás. Quando terminei os estudos, vim visitar o Brasil e pronto: vim para tomar um café, tomei o segundo e nunca mais voltei. Acabei fazendo aqui o que se faz numa vida: trabalhei, casei, criei cinco filhos.

Quando começou sua carreira docente?

Quando eu cheguei, abri uma escola de inglês e cursei Direito na Universidade Católica de Goiás, que depois se tornou a PUC-GO. Quando terminei a graduação eles me contrataram como professor de direito civil. Na época, o Ministério da Educação exigiu a criação do curso de direito internacional. A universidade me convidou a assumir a função e bancou o mestrado na Universidade de Bruxelas. Anos depois, quando introduziram o curso de relações internacionais, eles bancaram também o doutorado, novamente na Bélgica.

Quando o senhor mudou sua posição política?

Tenho uma trajetória de esquerda. Mas o esquerdismo no meu tempo consistia basicamente em pedir um pouco mais para o assalariado, um pouco menos para o patrão. Não tínhamos essa ideologia antifamília e anticristã de agora, esse ambientalismo religioso. Isso é coisa mais recente. Eu tinha um círculo de amizades mais na esquerda.

Lembro que o marco para mim foi o escândalo do kit gay. Eu estava com minha esposa vendo no noticiário, e ela ficou em choque, me perguntou que mundo estava sendo construído para nossos netos. Eu achava que a homossexualidade era uma escolha pessoal, mas então percebi que havia uma estratégia política clara por trás disso. Me dei conta de que existe o homossexualismo, que é um movimento político. A partir daí comecei a me manifestar como conservador. Quando me distanciei da esquerda, passei a encontrar pouco espaço na universidade.

 Por que o senhor decidiu parar de lecionar?

Eu me aposentei, mas continuava lecionando, até que, em 2015, a universidade barrou um curso de extensão que eu propus. Eu me sentia atropelado nos meus valores, por todas essas ideologias antifamílias, anticristãs. Formamos um grupo de estudo, meia dúzia de professores, meia dúzia de alunos, e fizemos um estudo sobre ideologia de gênero muito bem feito. Acabamos também escrevendo um livro sobre o tema, e então propusemos um curso de extensão baseado na obra.

Mas então esbarramos no lobby do politicamente correto que comanda a reitoria. O curso foi barrado. Os estudantes fizeram um abaixo assinado pedindo o curso. Teria sido um sucesso, porque tem uma demanda para isso, tem muita gente se questionando sobre isso. Geralmente, qualquer tema de curso de extensão é aprovado. Eu mesmo realizei vários. Mas esse assunto não pode. Fomos barrados por acadêmicos feministas e gays militantes.

Procurei o Ministério Público federal em Goiás, que arquivou minha reclamação usando o argumento da autonomia universitária. Procurei o Ministério Público estadual, que afirmou que o tema fugia de sua alçada porque envolvia o direito de expressão individual, e não coletivo.

O curioso é que o mesmo MP entrou, em seu site, com uma recomendação pública contra o Escola Sem Partido, advertindo os gestores de escolas de que se abstivessem de qualquer medida que cerceasse as manifestações ideológicas dos docentes. Ou seja: quando se trata de defender a liberdade de expressão de um professor conservador, o direito coletivo prevalece. Quando o professor é de esquerda, aí a liberdade de expressão prevalece sobre o direito coletivo.

O fato é que a PUC investiu na minha carreira, e naquele momento dizia que eu tinha que calar a boca. Essa inclusão que os militantes defendem é a coisa mais excludente do mundo, e afeta a liberdade acadêmica. Por isso saí e coloquei o curso na internet.

Foi quando o senhor começou a escrever os livros sobre o globalismo em suas diferentes vertentes?

Sim. Passados alguns meses, recebi um telefonema de um procurador de Minas Gerais. Ele me contou que um grupo de procuradores conservadores, que estão sem ar dentro da instituição, fizeram o meu curso, gostaram e me propuseram escrever um livro sobre o Ministério Público. Eles forneceram a matéria-prima, a informação, e eu escrevi o Ministério Público para Rir e Chorar, que explica como o MP funciona como um partido de esquerda, com dinheiro do contribuinte.

Do que trata seu livro sobre a Unesco?

A obra mostra como a Unesco monta uma espécie de cidadão universal, homogeneizado. E faz isso porque tem um projeto de governança global. Se você tem um projeto de governança global, você tem que fabricar um cidadão global. A Unesco faz essa clonagem cultural. Mas não consegui chegar nas intrigas internas, nos detalhes da operação desse projeto no Brasil. Se alguém conhecer mais informações, é só me procurar.

Qual o tema de seu novo livro?

Um pastor, que fez o curso sobre a Unesco, que também está na internet, me convidou a escrever um livro sobre o choque de premissas entre o globalismo e o cristianismo. Hoje, onde o globalismo avança, o cristianismo recua. Estou terminando agora. Já pensei em escrever um OAB para Rir e Chorar, e gostaria muito de ter alguém com dados para sustentar um trabalho desses sobre o Supremo Tribunal Federal.

O livro sobre o cotejo entre globalismo e cristianismo não é uma obra teológica, é de ciência polícia. Analisamos crenças religiosas como um objeto de estudo científico. O segredo está em escrever com dados e fatos, porque então fica difícil para os militantes contestarem. E então eles partem para o ataque pessoal. Eles se utilizam de um sistema de censura por rotulagem: você vira homofóbico, racista, machista, mesmo que não seja.

O senhor tem esperanças a respeito do mundo que será deixado para seus netos?

O Brasil, como muitos países do mundo, vive tempos de colonização cultural. O que está por trás disso é Wall Street, a Fundação Rockefeller, o George Soros, são eles que mandam no mundo. Para reverter esse drama, é complicado. Os Estados Unidos criaram o globalismo, e agora estão sendo devorados por esse monstro. A eleição de Donald Trump foi uma reação a isso. A esperança é o Trump se reeleger e firmar essa reação. Eu tento fazer a minha parte. Na minha idade, não consigo mais fazer a revolução, mas escrevo livros. Mas é um trabalho imenso, você está lutando contra um poder econômico, político e cultural esmagador.

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