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ARTIGO | Por mais vovós e seus ditados

Antonio Nunes Barbosa Filho

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Estou envelhecendo. E posso perceber isto não apenas porque as herdeiras estão crescendo a olhos vistos, como também porque o corpo já apresenta, aqui e ali, as suas dores, as suas mazelas e me cobra por algum exagero, mas, sobretudo, porque cada vez mais me povoam a mente os ensinamentos de meus pais e avós, os quais desejo passar às filhas, como verdadeira herança familiar.

Tenho a felicidade de trazer muito vivas estas lembranças, assim como prezar por tê-las recolhido. Confesso, uma das coisas que me assusta na aparente modernidade é o não desejo de envelhecer ou, pelo menos, de negar o lado bom de envelhecer. Para onde olho, percebo gente de todas as classes sociais tentando driblar o inafastável destino. De pronto, me recordo de um dos ditados antigos que diz: “Quem não quer envelhecer, que morra cedo!”. Pura verdade.

Com frequência me pego repetindo à prole as palavras que me foram ditas por ancestrais, narrando histórias dos antepassados – nem sempre adaptadas aos tempos atuais, como forma de conhecerem um pouco mais de sua própria história, desse milagre que a todos nos faz eternos chamado família.

Enquanto observo ao meu redor, vejo quantas pessoas lutam desesperadamente contra o invencível tempo, ao invés de aproveitá-lo melhor e utilizá-lo, por exemplo, para repassar lições aos seus descendentes, nem que seja por meio de ditados, alguns dos quais tão ricos e que estão ficando para trás, como se não tivessem serventia e por caírem no esquecimento, não tardará a não serem mais lembrados e ficarão perdidos para sempre.

Quando recordo de meus avôs, sempre consigo percebê-los como um repositório de bons ensinamentos, sempre dispostos a nos fazer, filhos e netos, crescer por intermédio das reflexões, das lições e dos exemplos. Então, não raro, me pergunto: Em minha geração e nas subsequentes à minha, onde e por que razão, aparente ou não, tudo isso se perdeu?

De um lado, percebo uma corrida, um tanto desequilibrada, uma busca pelo elixir da juventude, por mais anos com uma melhor qualidade de vida. Nada contra, pelo contrário. Que todos possam usufruir por mais anos de vida junto aos seus, em especial de seus netos. Talvez a resposta seja porque muitos já não se sintam confortáveis na posição de avós, por preconceitos quanto ao envelhecer, por incompreensão do real significado e da importância do papel social dos patriarcas e matriarcas para a sustentação de uma sociedade saudável, o que termina por levar muitos à negativa em desempenhar tão bela posição, que antes tanto orgulhava aqueles que a alcançavam. Mas, por favor, só não tentem substituir a sua presença por bens materiais. Há uma missão mais importante a cumprir, uma herança muito mais significativa a deixar.

E disso tudo, trago apenas uma certeza: Acredito, firmemente, que o mundo poderá ser muito, muito melhor quando muitos reencontrarem o prazer e a felicidade de serem apenas vovôs e brindarem os seus netos com muitos ditados e histórias familiares. Pensem nisso!

Engenheiro por formação, professor universitário por vocação e escritor por paixão, Nunes é autor de livros técnicos e infantis. Premiado como contista pela Academia Pernambucana de Letras.

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