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ARTIGO | O que sobrou daquela casa?

Antonio Nunes Barbosa Filho

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Depois de anos morando em residências alugadas, finalmente, teríamos a nossa própria. Sendo a primeira construção da rua, ganhou o singelo n. 22. E, para nós, aquele simpático número ainda nos traz boas lembranças. Naquele endereço residi dos 8 aos 23 anos, mas, para os meus pais foi a morada por quase quatro décadas.

Ao começo, era longe de tudo. Terra batida e mata de cajueiros por toda a vizinhança. Estávamos a poucos metros da praia, tantas vezes meu refúgio e diversão. Joguei muita bola na rua, das canelas ficarem grossas de tanta poeira. Para serem limpas tinham que ser muitíssimo bem esfregadas. Do contrário, as toalhas brancas que, sabiamente, a mamãe fazia questão que usássemos, ficariam terrivelmente impregnadas e seria eu forçado a tomar outro banho, além de lavá-las até deixá-las brancas outra vez. E ela estava certa, aprendi a lição.

Daquele endereço presenciei abrir estradas, avenidas, vi surgir outras casas, edifícios… Enfim, testemunhei a cidade crescer. Havia jardineiras ao longo do muro, foram destruídas. Do intramuros, mesmo já adulto, não conseguia mais ver o que estava além dos muros. Foram elevados até o limite permitido pela legislação. Pareceu-nos pouco para garantirmos a segurança de um casal de velhos. Cercas elétricas foram instaladas, nos tornamos prisioneiros, apesar dos jardins sempre bem cuidados pela família.

Algum tempo depois, para que melhor pudéssemos cuidar deles, deixaram aquela morada e se instalaram em um apartamento, onde residem até hoje e no qual costumamos visitá-los, filhos, netos e todos os mais que um dia couberam em seus corações.

Com eles aprendi que mais importante do que ter um lar para reunir é ser casa para nos unir para além deles. E esta é a maior lição que aprendi de meus pais. A casa é a força moral e afetiva do casal, o que verdadeiramente legam aos seus. Não as construções materiais que porventura possam deixar em patrimônio e que muitas vezes causa tanta desunião. Que este é o papel primordial dos patriarcas, o de unir os seus descendentes para que sejam uma família una, ainda que desprovidos de recursos materiais, para quando eles mesmos não mais existirem. E esta é e será sempre uma aliança indestrutível. Podem acreditar!

Engenheiro por formação, professor universitário por vocação e escritor por paixão, Nunes é autor de livros técnicos e infantis. Premiado como contista pela Academia Pernambucana de Letras.

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