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ARTIGO | Não é preciso mentir para dizer inverdades

Antonio Nunes Barbosa Filho

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Amanhecia o dia aonde o sol chega primeiro. Enchia-nos, como de costume, de luz, calor e esperanças. Estava no horário da primeira medicação, que tem que ser administrada ainda em jejum, para que somente cerca de uma hora depois possa lhe ser administrada a primeira das muitas doses de alimentação nasogástrica ao longo do dia.

Como de costume, perguntei-lhe como havia passado a noite. E ele, como sempre, dizia-me que bem, apesar das dificuldades e cuidados que o seu quadro de saúde inspira.

Assistimos a Santa Missa pela televisão e, enquanto ele dava um cochilo fugaz, aproveitei para tomar o café da manhã, sempre muito breve aos domingos, uma rotina que já caminha para cinco anos. Retornei ao quarto, vimos um programa de músicas de viola, depois o programa acerca das coisas do campo – coisas simples que ele tanto aprecia e decidimos manter o aparelho ligado por mais uns instantes, para o programa sobre esportes que se iniciava.

Foi quando, para nossa surpresa, o programa apresentou uma reportagem sobre o jovem jogador de futebol brasileiro que recentemente se transferira para Portugal, nossa tão querida terra ancestral.

Ele dava a entrevista por um desses programas de computador tão em voga nestes tempos de “pandemia” e o jornalista logo se apressou em perguntar como estava sendo a adaptação nesses “novos” tempos. O jogador comentou que por lá não havia tantos casos quanto cá. Então, o entrevistador, partindo desse comparativo de casos entre o Brasil e Portugal, concluiu a matéria com um discurso que desqualificava a ação do governo brasileiro no trato com o vírus originário da China.

Quase de imediato, fazendo sinal com a mão para que desligasse o televisor, como se dizendo “Já é o bastante por hoje!”, o meu pai comentou com a tranquilidade habitual: – Não é preciso mentir para dizer inverdades!

E ele, em seus 85 anos de idade, sendo 62 de medicina, mais uma vez, estava certo. Desde março dizia que o modo de cuidar desse mal estava equivocado, que trancafiar pessoas saudáveis e assintomáticas com grupos de risco serviria apenas para uma explosão de casos, pois, para ele, o vírus já estaria circulando há, pelo menos, uns 3 a 4 meses antes do início deste ano e da data de declaração da grave situação de saúde pública.

E comparar Portugal, cujo território é pouco menor do que o de Pernambuco, onde resido e com uma população, hoje estimada em de 10 milhões de habitantes, ou seja, algo em torno de 21 vezes menor do que a do Brasil [1], um país continental, não é ingenuidade ou incapacidade de associar realidades tão distintas, mas, uma forma escamoteada de dizer inverdades, para convencer os incautos que mantêm ouvidos abertos a tudo, sem a reflexão devida e necessária, ainda que não sejam mentiras explícitas.

Meias verdades são mentiras completas. E não é preciso dizê-las, basta esconder a verdade.

Neste tempo de acesso a tantas informações, a nossa principal tarefa é refletir acerca de sua veracidade, pois não basta a boa aparência, ela precisa se confirmar se e quando posta à prova, o que pouco se faz nos dias atuais. Muitos anos atrás, percebendo o gosto consolidado pela leitura, o meu sábio e velho pai me fez conhecer uma frase atribuída a Santo Agostinho, que faço questão de ensinar para os meus alunos, sejam da graduação ou da pós-graduação, para que possam assumir uma postura crítica em seus trabalhos acadêmicos, na vida profissional e na vida em geral, pois, como disse um dos maiores sábios da Igreja: “Ler, sem refletir, é como comer sem digerir!”. E tal pensar, vale para todas as formas de informação que recebemos, seja pela mídia impressa, televisiva, por radiodifusão, nos livros e até mesmo nas mensagens por WhatsApp.

Fica mais esta lição, de quem há 50 anos me ensina a respeito de valores, vida em família e, sobretudo, sobre a vida em sociedade. E que bom que posso minimamente partilhá-las com vocês, caros leitores, por intermédio deste portal. Que a leitura destes textos, em sua simplicidade, possa ser de utilidade para vocês. Cordial abraço, desde o Recife. Paz e bem!

[1] Dados disponíveis em https://countrymeters.info/pt

Engenheiro por formação, professor universitário por vocação e escritor por paixão, Nunes é autor de livros técnicos e infantis. Premiado como contista pela Academia Pernambucana de Letras.

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