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A linguagem chantagista de Erdogan e o ponto fraco da Europa

Thaís Garcia

Publicado

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Imagem: Reprodução

O ditador turco, Recep Tayyip Erdogan, abriu os portões para a imigração em massa para a Europa. Mas qual seria o objetivo da Turquia ao abrir suas fronteiras? Pode ser que Ancara esteja buscando desesperadamente apoio para sua luta na Síria.

A Europa já está acostumada à linguagem chantagista de Erdogan: “Não estamos mais fechando os portões para os refugiados. A União Europeia deve cumprir suas promessas”, disse o ditador turco em um discurso em Istambul.

Milhares de migrantes estão na fronteira com a Grécia, onde são aguardados por patrulhas equipadas com gás lacrimogêneo e granadas de choque. Os búlgaros, também cautelosos com o novo fluxo de migrantes, enviaram 1.000 soldados extras para sua fronteira com a Turquia.

Segundo um dos conselheiros mais importantes de Erdogan, Ibrahim Kalin, seu país acomoda 3,5 milhões de “refugiados”, não apenas da Síria, mas também do Iraque, Afeganistão, Paquistão e muitos países africanos.

“Fazemos o possível com os recursos que temos. Mas há limites para o que podemos fazer.A UE age como se isso fosse um problema da Turquia”, disse ele à mídia britânica, preocupado com as reações da Europa.

Acordo
Quais são exatamente as promessas da UE de que Erdogan está falando? O ditador turco provavelmente se refere à solução financeira do acordo entre UE e Turquia, válido desde março de 2016.

A UE não sabia o que fazer com os muitos imigrantes que vieram da Síria, principalmente através da Turquia. Entre outras coisas, o acordo com a Turquia concordou que a própria Turquia deve receber mais imigrantes e proteger melhor suas fronteiras. Em troca, o país recebe dinheiro extra da UE. Também foram feitos acordos sobre a abolição da exigência de visto para os turcos que viajam para a UE.

A quantia a ser recebida pela Turquia é um pacote de € 6 bilhões. Segundo a Comissão Europeia, 2,7 bilhões já foram pagos e 4,3 bilhões foram estabelecidos em acordos concretos.

O Comissário para a Política Europeia de Vizinhança e Negociações de Alargamento, Oliver Várhelyi, afirmou recentemente que isso confirma que a UE mantém as suas promessas. E seu colega Janez Lenarcic, Comissário de Gerenciamento de Crises, confirmou que o apoio aos migrantes é uma prioridade do bloco europeu.

O apoio aos refugiados é uma prioridade para a UE. Mais de 1,7 milhão de refugiados vulneráveis agora podem suprir suas necessidades básicas, como aluguel e remédios, e mais de meio milhão de crianças podem ir à escola”, disse Lenarcic.

Ponto fraco
É muito provável que a Turquia esteja orquestrando um “tipo diferente de ajuda” e use o ponto fraco da União Europeia para fazer isso.

A Turquia está em um conflito perigoso com o presidente sírio Bashar al-Assad e seu aliado russo Vladimir Putin. No noroeste da Síria, onde a Turquia oferece apoio aos rebeldes, 55 soldados turcos já morreram. Na quinta-feira (27), 33 soldados morreram em ataques aéreos em Idlib, a maior perda turca desde que o país entrou na guerra em 2016.

Erdogan quer impedir que seu país seja sugado para a guerra civil síria e agora quer que a UE, ou melhor ainda, a OTAN, se envolva e o ajude. No entanto, a aliança não quer interferir no conflito.

Após uma reunião recente de crise por insistência da Turquia, a OTAN decidiu não oferecer assistência por enquanto. A Turquia pode muito bem ser um membro proeminente da OTAN, com o segundo maior exército (depois dos americanos), mas isso não significa que a aliança queira interferir nesse conflito aparentemente sem esperança. Certamente não, porque estará então diretamente se opondo aos russos.

No entanto, a OTAN condenou a agressão contra os soldados turcos. Os aliados expressaram suas condolências à Turquia e solidarizaram-se com Ancara.

“Esta situação perigosa deve ser imediatamente retroceder”, disse Jens Stoltenberg, Secretário Geral da OTAN.

A OTAN exige que as partes em conflito deem acesso urgente aos trabalhadores da ajuda humanitária.

“Apelamos à Síria e à Rússia para que se comprometam totalmente com os esforços liderados pela ONU para encontrar uma solução pacífica para o conflito na Síria.”

A aliança monitora a situação do ar com aeronaves AWACS. Os Estados-Membros estão analisando o que mais podem fazer para impedir que o conflito se desenvolva, segundo Stoltenberg.

Além disso, devido à ofensiva sírio-russa em Idlib, a Turquia já está vendo uma nova massa de migrantes na casa do milhão pronta para passar por suas fronteiras com a Síria.

Ação orquestrada

Erdogan sabe muito bem como ele pode prejudicar a Europa. Nos últimos meses, ele fez tudo o que pôde para revigorar o medo da Europa de receber um novo fluxo de migrantes. Mas não se trata de uma onda descontrolada de pessoas em pânico, e sim, de uma ação orquestrada.

Segundo a mídia americana, o governo turco comprou passagens para milhares de migrantes, que foram transportados de Istambul em “vans da Mercedes Benz” para a fronteira. Oficiais de alfândega e guardas de fronteira teriam sido instruídos a deixá-los passar. Milhares de migrantes também estariam a caminho de outras cidades.

As cenas desses migrantes em massa foram meticulosamente gravadas pela mídia estatal turca. Nesses vídeos é possível ver pessoas que estão a pé, pela floresta, a caminho da fronteira com a Bulgária, ou fazem a travessia em um barco precário para uma ilha grega. Essas pessoas não são forçadas, mas já estão felizes por não estarem mais presas na Turquia. São imagens que evocam lembranças da crise de 2015 na Europa.

Por enquanto, a resposta da UE limita-se a um apelo do Alto Representante para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, para que se ponha fim aos combates na Síria. Ele teme que, caso contrário, isso resulte em um “confronto militar internacional aberto”.

18.000 migrantes para a Europa em 24 horas
Erdogan anunciou na mídia, que em 1 dia, pelo menos 18.000 migrantes atravessaram a fronteira entre a Turquia e a Europa.

Até o último domingo (01/93), entre 25.000 e 30.000 imigrantes podem ter entrado na Europa, segundo Erdogan.

“O que é que fizemos ontem? Nós abrimos as portas. Não vamos fechá-las… Porquê? Porque a União Europeia deve cumprir suas promessas”, disse Erdogan.

Na fronteira com a Grécia, os gregos não os estão deixando entrar.

A Grécia afirmou ter impedido mais de 4.000 imigrantes de entrar no país nas últimas horas. Os refugiados estão em terra de ninguém, entre as fronteiras turca e grega. As autoridades gregas dizem que estão determinadas a proteger as fronteiras terrestres.

“O governo fará tudo o que puder”, disse o porta-voz do governo, Stelios Petsas. Isto não tem nada a ver com o Idlib”, disse ele.

A polícia de fronteira grega prendeu pelo menos 66 pessoas que tinham atravessado ilegalmente a fronteira da Turquia, disse o porta-voz. De acordo com Petsas, eles faziam parte de um grande grupo de imigrantes em massa que tentavam entrar na UE. Foi uma tentativa organizada de atravessar a fronteira, de acordo com o porta-voz.

Mais de 4.000 passagens ilegais da fronteira foram evitadas”, disse Petsas na televisão estatal ERT após uma reunião de crise liderada pelo primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis. “Temos mantido e protegido as nossas fronteiras, que são também fronteiras da UE”.

O colunista polonês do Conexão Política e produtor do ‘Poland Daily’ e do ‘Poland Daily History’ para a’ TV Republika’ na Polônia, Adam Starski, publicou em seu Twitter vídeos que mostram as ações de defesa grega para impedir a invasão em massa.

“A Grécia agora está enviando unidades do exército com os aviões Lockheed C-160 Hercules para a cidade de Alexandroupolis, perto de Evros, na fronteira da Grécia com a Turquia, para reforçar os guardas de fronteira contra a onda de migrantes que pressiona suas fronteiras. Obrigado Grécia, você está protegendo toda a Europa!”, disse Adam Starski.

De acordo com Starski, Erdogan continua enviando ônibus gratuitos aos migrantes, pegando-os em Istambul e levando-os para a fronteira grega.

“Aqui, um grupo de marroquinos (não há guerra no Marrocos) comemora quando os ônibus chegam cantando canções louvando Alá e Erdogan. Um deles grita ‘eu te amo, Erdogan'”, escreve Starski ao publicar as imagens no Twitter.

Atenas não só enviou força militar extras para as fronteiras com a Turquia em terra, como também patrulhas em navios extras perto das ilhas gregas no Mar Egeu oriental. Mais de 50 navios da Guarda Costeira e da Marinha já foram enviados para lá, segundo um porta-voz do governo.

A polícia grega disparou gás lacrimogêneo para conter os migrantes que tentavam atravessar a fronteira a partir da Turquia. Alguns atiraram pedras contra a polícia, segundo repórteres da agência de notícias AFP.

Os confrontos no posto fronteiriço turco de Pazarkule eclodiram, onde milhares de migrantes se reuniram em volta de fogueiras.

Criminosos

Segundo Adam Starski, Erdogan estaria libertando criminosos sob a condição de se infiltrarem entre os “refugiados” para que eles fossem para a Europa. Em um vídeo, um afegão diz que Erdogan o libertou da prisão e agora ele poderá ir para a Europa “tentar uma vida melhor”.

O afegão conta ao repórter que a polícia turca havia levado ele até a fronteira e dito a ele e outros companheiros de viagem que “os portões estavam abertos para ir para a Europa”.

“Parece que Erdogan está usando uma jogada do antigo manual de Fidel Castro. Há relatos de que 400 criminosos migrantes foram libertados da prisão sob a condição de irem à fronteira grega para solicitar asilo como refugiados. Funcionou para Castro, agora Erdogan pode esvaziar suas prisões”, comentou Starski.

Bulgária e Hungria
Além da Grécia, a Bulgária reforçou os controlos na fronteira com a Turquia.

A Hungria também reforçou os controles em sua fronteira sul. Isso foi decidido pelo primeiro-ministro, Viktor Orbán, após uma conversa telefônica com Erdogan, noticiou o serviço de imprensa do governo húngaro.

Após o telefonema, Orbán – conhecido por ser um dos únicos líderes europeus a reconhecer a imigração atual como uma invasão em massa – convocou o gabinete de segurança húngaro.

“A Hungria deve reforçar a proteção das suas fronteiras e prestar especial atenção aos desenvolvimentos na rota migratória dos Bálcãs”, concluiu Orbán.

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