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Análise

A diplomacia chinesa da armadilha da dívida; o triste exemplo do Laos

Thaís Garcia

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Imagem: Reprodução

A infame diplomacia chinesa da armadilha da dívida – de desidratar estrategicamente um país, mergulhá-lo em empréstimos e controlar suas empresas e setores estratégicos –  está espalhando cada vez mais os tentáculos mortais do dragão vermelho e acelerando a agressiva política expansionista do Partido Comunista Chinês, enquanto busca ocupar os ativos de países estrangeiros.

Para expor essa estratégia comunista chinesa, basta observar o país que atualmente é o maior credor do dragão vermelho, o Laos. O país, que ao seu norte faz fronteiras com a China, se tornou a mais recente vítima da armadilha da dívida chinesa. Depois de ser desidratado estrategicamente pelo governo do Partido Comunista Chinês e ser mergulhado em empréstimos chineses insustentáveis, o Laos, para evitar um calote da dívida chinesa, sucumbiu-se à China permitindo que ela ocupasse a rede elétrica nacional do país.

Sintetizando, o governo do Partido Comunista Chinês desidratou estrategicamente o Laos, enterrou-o sob empréstimos insustentáveis e agora controla sua rede elétrica nacional.

O modus operandi do ditador comunista chinês Xi Jinping, de oferecer a países menores e menos ricos em recursos grandes financiamentos sob o manto da ‘Iniciativa do Cinturão e Rota’ (em Inglês: Belt and Road Initiative – BRI) com condições de reembolso punitivas, permite à China ocupar ativos estratégicos dos países inadimplentes.

Não surpreende saber que a China é o maior credor do Laos, que abriu caminho para um acordo de participação acionária na rede de energia entre a estatal Electricite du Laos (EDL) e a China Southern Power Grid Co.

Em 4 de setembro, o Bangkok Post informou que a China Southern Power Grid Co agora teria o controle majoritário da nova Electricite du Laos Transmission Company Limited. O acordo de participação na rede elétrica foi assinado no início deste mês entre a estatal Electricite du Laos (EdL) e a China Southern Power Grid Co, segundo a agência de notícias estatal chinesa Xinhua, que não deu detalhes sobre a nova propriedade.

Financiado pelo dinheiro chinês, o Laos gastou pesadamente em projetos hidrelétricos e em uma nova ferrovia de alta velocidade, submergindo em uma crise de dívidas. As obrigações do serviço da dívida do país neste ano são estimadas em cerca de US $ 1,2 bilhão, com as reservas estrangeiras despencando para US $ 864 milhões em junho, segundo o Bangkok Post.

Toshiro Nishizawa, um professor japonês que aconselhou o governo do Laos sobre estabilidade fiscal, disse: “Economicamente, o Laos vai depender mais da China e isso é inevitável”.

Apesar do Laos se apresentar como “aliado” de Xi Jinping, pois foi o primeiro país a endossar a mensagem política de Xi de “construção de uma comunidade de destino comum”, o governo comunista chinês mostrou que não tem aliados ao desidratar o Laos.

O Laos é um país sem litoral, com 7 milhões de habitantes e depende muito do rio Mecom (Mekong) – um dos maiores rios do mundo – para matar a sede de sua população. O Laos, junto ao Vietnã, Camboja, Tailândia e Myanmar, caem na Bacia do Baixo Mekong, que recentemente sofreu uma seca severa quando os níveis de água do rio baixaram para o nível mais baixo em 50 anos.

A bacia hidrográfica do rio Mekong. Fonte: Hatfield 2009

De acordo com uma empresa de pesquisa com sede nos Estados Unidos, as secas prejudiciais podem ser atribuídas em grande parte às represas chinesas que têm retido os remansos.

Alan Basist, meteorologista e presidente da Eyes on Earth disse: “Se os chineses afirmam que não estão contribuindo para a seca, os dados não sustentam essa posição”.

A China afirma que houve pouca chuva no ano passado em sua porção de 4.350 km do rio Mecom, que é conhecido como rio Lancang. No entanto, a região do rio na China recebeu chuvas acima da média, de acordo com medidas de satélite de “umidade da superfície” e o derretimento da neve foi ligeiramente acima da média durante a estação chuvosa de maio a outubro. Mesmo assim, os países da Bacia do Baixo Mekong no sudeste da Ásia testemunharam a pior seca das últimas cinco décadas.

Os níveis de água medidos a jusante ao longo da fronteira entre a Tailândia e o Laos caíram, às vezes, em 3 a 10 metros dos níveis médios, causando estragos nas economias dos países da Bacia que são baseadas na agricultura.

No centro das atenções estão as 11 barragens que a China construiu no poderoso rio Mecom, com uma capacidade de água combinada de mais de 47 bilhões de metros cúbicos. Mas o regime comunista da China, conhecido por sua ausência de transparência, não divulga nenhum dado sobre a quantidade de água que está retendo para encher os reservatórios.

80% das 12 milhões de famílias nessas economias agrárias dependem diretamente do rio Mecom para sua sobrevivência. Os meios de subsistência estão em risco com as barragens chinesas retendo os remansos do rio Mecom na província chinesa de Yunnan.

Todos os quatro países da Bacia do Baixo Mekong podem enfrentar devastação econômica à medida que o Mecom recua nas áreas a jusante. As pescas que contribuem com cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) combinado da região estão em risco de serem seriamente aniquiladas. Os mais atingidos serão o Camboja e o Laos, onde a pesca contribui com 18% e 12,6% da economia, respectivamente.

A China agora controla as duas linhas de vida mais importantes do Laos: energia e água. Pela história recente da China, se o Laos algum dia tomar uma posição ou uma ação que provoque a ira da China, não será difícil dizer que Xi Jinping ordenará a seus lacaios que punam o Laos cortando energia e abastecimento de água.

O Laos está agora no caminho certo para se tornar uma pseudo-província da China.

Um estudo publicado em 2019 pelo Lowy Institute, com sede na Austrália, estima a dívida do Laos com a China em 45% do PIB, com investimentos chineses no país já totalizando mais de US $ 10 bilhões.

O exemplo do Laos serve de alerta para a comunidade internacional. O momento é oportuno para que países reavaliem suas relações com o dragão vermelho e possíveis “investimentos” oriundos de um país governado por comunistas com uma explícita e agressiva política expansionista.

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