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Jurista e filósofa holandesa fala sobre conservadorismo na Europa

Thaís Garcia

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A jurista holandesa, Raisa Blommestijn, de 26 anos, mora em Haia, uma das maiores cidades do oeste da Holanda. Ela também cresceu nesta região. Em 2012, Raisa iniciou seus estudos de Direito, e mais tarde também de Filosofia, na Universidade de Leiden, onde agora trabalha como professora e pesquisadora.

Entre palestras e aulas, Raisa se concentra principalmente em ensinar os valores que fundamentam o sistema jurídico e a democracia holandesa. Atualmente, ela também está trabalhando em uma dissertação sobre a República Alemã de Weimar (1918-1933); sua dissertação enfoca a ascensão do fascismo e a questão da causa da jovem democracia alemã.

Raisa Blommestijn nem sempre foi conservadora, as ideias e valores em que ela acredita se formaram durante seus anos de faculdade.

“Como a maioria das pessoas aqui na Holanda, eu era bastante progressista antes de começar meus estudos. Afinal, você cresce com a ideia de que o multiculturalismo é bom, que a migração desenfreada é um enriquecimento e que existem todos os tipos de grupos minoritários que também têm direito a um futuro em nosso país próspero. Durante meus estudos, tive cada vez mais a ideia de que as coisas não estavam bem, especialmente no que diz respeito ao Islã na Holanda. Por exemplo, por que foram abertas salas de oração em nossas universidades seculares? Por que deveriam ser permitidas escolas islâmicas que transmitem valores que são totalmente diferentes dos nossos? E os ataques de 11 de setembro? A crise de refugiados aqui na Holanda, em 2015, foi o fator decisivo. Comecei a aprender mais sobre os desafios da migração desenfreada e tornei-me cada vez mais consciente das consequências negativas para o nosso país”, disse Raisa Blommestijn ao Conexão Política.

Na universidade

Na primavera holandesa deste ano, quando o movimento Black Lives Matter rapidamente ganhou influência na Holanda, após a morte do americano George Floyd, Raisa percebeu que uma grande afronta estava vindo em direção de muitos dos valores e princípios em que ela e seu país haviam sido construídos. Em várias instituições acadêmicas, incluindo a universidade em que Raisa trabalha, o movimento foi usado como uma oportunidade para impor a política e os ideais esquerdistas no ambiente acadêmico e na sociedade, com a desculpa de “inclusão e justiça social e racial”.

“Em minha opinião, seguir tais políticas é uma forma de marxismo cultural, em que o homem branco e heterossexual é visto como o opressor final e de quem outros grupos devem ser protegidos. É também uma forma de política de identidade, na qual o grupo ao qual você pertence dita suas ideias e sua posição. Tudo isso vai contra o clima aberto, que acho que deveria ser na universidade por excelência”, explica Raisa.

Segundo Raisa, durante o mesmo período, este clima aberto das universidades sofreu uma pressão crescente no debate social e transformou-se numa atmosfera cada vez mais opressora.

“As pessoas com uma opinião divergente foram silenciadas no debate público e os brancos não foram autorizados a opinar sobre o racismo por causa do alegado ‘privilégio branco’. Tudo isso era tão ofensivo para mim que não conseguia mais ficar quieta. Então, eu, juntamente ao meu colega Bart Collard, redigi um manifesto em defesa da liberdade de expressão, o equivalente holandês da carta ‘American Harper’s Letter’, que foi assinada mais de 13.000 vezes em três dias. Essa carta – pelo menos parcialmente – garantiu que o debate sobre a cultura do cancelamento na Holanda fosse cada vez mais desencadeado”, disse Raisa.

E foi exatamente nesse período descrito acima que Raisa encontrou inspiração em alguém como a escritora britânica,  J.K. Rowling, que falou em suas redes sociais contra a loucura do “woke” (termo em Inglês usado pela esquerda para impor uma percepção e consciência das questões relativas ao que chamam de “justiça social e racial”) que descreve as mulheres como “pessoas que menstruam”. Ela também leu o livro ‘Madness of Crowds’ (A Loucura das Multidões), de Douglas Murray, um conservador ateu, homossexual, que escreveu sobre o que está a acontecer na sociedade hoje em dia, no que diz respeito às discussões sobre sexo, raça e gênero. O livro foi para Raisa muito inspirador.

“Quando li aquele livro pensei: tem mais gente que pensa como eu!”, disse Raisa.

Tolerância,  liberdade de expressão e imigração em massa

Tradicionalmente, a Holanda sempre foi caracterizada por um alto grau de tolerância, tolerância esta que significava que, em princípio, tudo podia ser dito. No entanto, Raisa explica que os valores originais dessa tolerância estão sendo paulatinamente invertidos.

“A Holanda foi caracterizada por um alto grau de liberdade de expressão, mas também liberdade de imprensa: obras importantes foram tradicionalmente impressas em nosso país. Mas lentamente, essa tolerância se transformou em um tipo diferente de tolerância, que pressupõe que não devemos machucar os outros. Isto significa que um dos valores mais importantes e mais característicos dos Países Baixos, a liberdade de expressão, está cada vez mais limitado”, alertou Raisa.

Em 2015, Raisa conta que houve uma verdadeira crise de refugiados na Holanda e em outros países europeus. Como resultado, o número de imigrantes, que já era alto, aumentou enormemente em pouco tempo. Atualmente, a Holanda passa por grandes desvantagens, com problemas práticos como falta de moradia e sobrecarga no atendimento aos enfermos, além de problemas com relação à segurança. Em alguns bairros das cidades holandesas, as mulheres dificilmente podem andar sozinhas na rua. A imigração em massa também garantiu que os valores tipicamente holandeses, como o respeito entre homens e mulheres e a liberdade de expressão, estejam cada vez mais sob pressão.

“Para mim, um primeiro passo para uma solução seria concentrar-se no combate à pregação de ideias intolerantes. Isso significa que as mesquitas radicais onde são pregadas ideias que estão em desacordo com as de nossa sociedade livre e aberta devem ser fechadas. Além disso, é imperativo que a imigração em massa seja interrompida, então: fechem as fronteiras e só permitam a entrada de migrantes a convite da Holanda”, disse Raisa ao Conexão Política.

“Também é importante focar mais na integração das pessoas que estão aqui. Definir padrões mais elevados, a começar pelo aprendizado do idioma, mas também em termos de adaptação. Finalmente, deve-se buscar uma solução para os imigrantes que estão sistematicamente envolvidos em atividades criminosas ou que se recusam a se integrar, e as opções para (encorajar) a migração de retorno devem ser expandidas”, acrescentou.

Raisa acredita que muitos partidos políticos não estão suficientemente conscientes da gravidade do problema causado pela imigração em massa.

“Na verdade, vemos apenas que os partidos do lado direito do espectro político, o PVV e o FVD, realmente sentem a necessidade de limitar a imigração. O liberal de direita VVD, que está à frente da Holanda há 10 anos, também fala duramente sobre a abordagem do problema – sem realmente mudar nada. Na verdade, sob este governo, o número de imigrantes cresceu explosivamente e, com isso, os problemas para a Holanda”, explicou Raisa.

Quanto à liberdade de expressão, também na Holanda e em toda a Europa percebe-se a enorme censura e o cancelamento de conservadores, principalmente nas redes sociais.

“Acho que é um grande problema que várias empresas de tecnologia possam exercer uma grande influência sobre a liberdade de expressão dos usuários. É assim que os sons conservadores são censurados”, disse Raisa.

“Na Holanda, vemos isso quando as pessoas que expressam uma opinião indesejada (“não acordada”) nas redes sociais estão sendo atacadas. Eles são chamados de tudo. A ideia subjacente é, claro, que eles ainda se conformarão ao pensamento dominante, progressivo, “acordado”. Na verdade, outra forma de censura, que também visa o som conservador”, acrescentou a jurista.

Um exemplo de problemas causados pela imigração em massa é a decapitação do professor Samuel Paty, ocorrido recentemente na França. O ataque ao professor faz parte de uma série de ataques terroristas islâmicos que devastam a Europa, mas especialmente a França, há muito tempo.

“Neste caso, era um professor que havia mostrado uma caricatura do profeta Maomé em sua aula. Um muçulmano radical achou que, portanto, deveria matar o professor, e ele foi decapitado no meio da rua”, disse Raisa.

Segundo Raisa, um relatório de um programa holandês de atualidades mostrou que 75% dos jovens muçulmanos na França têm valores islâmicos mais altos do que os valores seculares franceses.

“Não é surpreendente que muitos professores tenham medo. O que isso significa para o ensino? Ainda é possível exibir uma caricatura? O medo é alimentado ainda mais porque nosso governo é incapaz de proteger efetivamente os professores. Afinal, nenhuma medida foi tomada para evitar ataques tão horríveis na Holanda, enquanto os professores holandeses agora também estão sendo ameaçados, e alguns até tiveram que se esconder por exibir uma caricatura em sala de aula. Isso é muito sério! A escola é antes de tudo um lugar onde os alunos são apresentados à cultura holandesa e onde a integração é promovida. Isso agora é impossível: mostrar uma caricatura quase se tornou um ato de resistência. O governo fica parado olhando para isso e dificilmente se recusa a dar o primeiro passo: chamá-lo de terror islâmico”, disse Raisa.

A Direita e o futuro na Holanda

Questionada sobre a posição política e a mentalidade da nova geração que está crescendo em seu país, Raisa acredita que os mais jovens estão politicamente mais conscientizados do que as gerações anteriores.

“Tenho a impressão de que a geração mais jovem – não sou tão velha, mas as pessoas um pouco mais novas do que eu – é mais politicamente consciente do que a minha própria geração. Aceitamos muito mais ‘como era’ e não acho que éramos tão preocupados com o desenvolvimento social. E acredito que isso mudou desde 2015, com a ascensão de Donald Trump, com a crise de refugiados aqui na Holanda, e depois, com o Brexit”.

No entanto, segundo Raisa, um dos problemas que não permite um fortalecimento dos conservadores na Holanda atualmente é que o espectro “conservador de direita” também está dividido internamente. Ela acredita que deva-se tentar superar essa divisão.

“Por que devemos atacar uns aos outros nas diferenças mínimas, enquanto uma verdadeira guerra cultural está sendo travada contra nosso país? Devemos enfrentar os instigadores dessa guerra cultural, certo?”, disse Raisa.

De acordo com a jurista e filósofa, mais e mais holandeses estão se conscientizando da seriedade dos problemas enfrentados na Europa e consequentemente em seu país.

“O ataque aos nossos valores holandeses vem tanto de baixo – da população, especialmente de pessoas de origem islâmica – quanto de cima – das elites que sempre cederam às demandas dessas pessoas e continuam a facilitar a imigração em massa. É hora de parar esse ataque nas duas frentes. Acredito que na Holanda temos agora de fazer uma escolha: ou permitimos que o ataque à nossa cultura e identidade continue ou tentamos realmente inverter a situação. O último significará que devemos nos opor ativamente aos radicais que minam nossa cultura, mas também a imigração em massa facilitada pela elite”, disse a jurista.

“No que me diz respeito, seria maravilhoso se houvesse mais cooperação entre os conservadores – tanto na Holanda, como na Europa, e em nível global. Em última análise, o sistema contra o qual lutamos em conjunto também está unido de muitas maneiras. É hora de um contramovimento unido surgir”, concluiu a jovem jurista e filósofa holandesa.