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Por que a literatura infantil e juvenil precisa retornar às origens?

Antonio Nunes Barbosa Filho

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Dia desses, auxiliando na elaboração de uma atividade escolar filial, pude constatar, mais uma vez, o quão rica foi a minha infância. Não em bens materiais, mas em ensinamentos e valores que faço questão de transmitir aos herdeiros, muitos dos quais reforçados por intermédio das muitas narrativas lidas e ouvidas há mais de 40 anos.

Lembro-me de sentar à mesa na hora do almoço para ouvir a sabedoria das estórias (ainda reluto em escrever “histórias” para narrativas ficcionais) saídas da boca de D. Rita, a lavadeira, cuja visita semanal à casa de meus pais – em tempos em que não havia máquinas de lavar a preços acessíveis para a população em geral – para mim e minha irmã, de idade próxima à minha, era um verdadeiro presente. Afinal, naquele dia, tínhamos a certeza de que passaríamos horas recheadas de encanto e de sabedoria.

Daquela mesma boca desdentada, que comia a refeição fazendo bolos amassados com as mãos, misturando o feijão com o arroz, a farinha e a carne, saíram lições até hoje vivas em nossas memórias. E, não raro, mesmo depois de já termos almoçado, comemos daquelas mãos muitos bolinhos. Nossos pais já não se importavam com o fato, apesar das muitas tentativas de que não incomodássemos a querida D. Rita, ela sempre os convencia de que o brilho dos nossos olhos era o que mais importava.

Enquanto amassava os alimentos para facilitar-lhe a digestão, contava estórias que nos encantavam e reforçavam o ensinamento familiar de respeito e admiração por aquela senhora que, mesmo iletrada, costumeiramente nos apresentava ensinamentos que não seriam encontrados em salas de aula e, mesmo, nos livros tão valorizados em nossa casa. Somos-lhe imensamente gratos por tudo o que nos presenteou por aqueles dias. Não podia ser diferente: guardamos por ela, bem no fundo de nossas almas, um imenso bem-querer, sempre em nossas melhores lembranças e orações.

Um pouco mais adiante na linha do tempo de minha vida, quando já plenamente alfabetizado e com autonomia para a incursão por alguns dos livros que habitavam as estantes de nossa casa, encontrei exemplares de Monteiro Lobato, José Lins do Rêgo, Machado de Assis, Lima Barreto, Mark Twain e Júlio Verne (cuja descrição de máquinas incríveis, acredito eu que, ainda que inconscientemente, contribuiu para a minha escolha profissional pela engenharia mecânica – pelo tanto que eu quis dar vida àquela tecnologia que sabia imaginária), os quais foram devorados ao lado de gibis que nos eram regularmente ofertados por nossos pais.

Mais uma vez, estava presente o encantamento: nas aventuras, nos cenários, nas lições, nas descrições dos personagens. A leitura nos moldava sem que percebêssemos. Praticamente não havia restrições quanto ao que poderíamos ler, exceto que fosse literatura de boa qualidade. Não fazíamos distinção entre este ou aquele autor, a autoria não nos importava. O texto e, por vezes, algumas mínimas ilustrações que o complementavam, era o centro de nossas atenções. E assim descortinamos belas leituras. Não havia a problematização sem sentido de que é preciso selecionar a obra a ler em função do autor, de que por suas características pessoais – as mais diversas – pretensamente rotularia sua literatura como devida ou indevida, boa ou má. E vice-versa. Se assim fosse, muitos renegariam textos maravilhosos de Oscar Wild, Truman Capote e tantos mais. A obra literária vai sempre muito além do que é ou de quem foi o seu autor. Os clássicos estão aí para comprovar. Alguns escritos em tempos tão distantes do nosso que pouco podemos afirmar de concreto acerca da vida de seus autores, comprovando que, em realidade, isso pouco ou nada importa.

Como pai, costumo frequentar livrarias em família. A dificuldade para trazermos à casa bons títulos para crianças tem crescido igualmente à oferta. Ao que me parece, enquanto escritor e consumidor de literatura para a infância e juventude, posto que habitualmente também leio as obras que disponibilizo aos rebentos, é que o mercado editorial nacional foi inundado com a despreocupação de ofertar textos que agreguem boa literatura e alguma formação pessoal e intelectual. E, infelizmente, neste sentido, tais livros – se assim pudermos considerá-los – perdem parte importante de sua essência: contribuir para o crescimento do leitor e não ser meramente um objeto de passatempo, embora a boa literatura possa ter este papel de prover um prazer secundário.

Dia desses, percebi alguns livros recentemente chegados ao nosso lar colocados pela primogênita para a doação, o que fazemos com certa frequência, para seja possível adquirir outras publicações em quantidade compatível com as estantes da casa. Lá estavam livros que acabara de receber de presente de aniversário. Já imaginando o motivo, fiz questão de confirmar junto a ela. Apesar de ser um best-seller para o público-alvo, ela se negara a continuar a leitura daqueles por “não terem conteúdo que se aproveite”, segundo as palavras da leitora do alto de seus 9 anos de idade.

De outro lado, se analisarmos, por exemplo, a coleção de títulos de maior êxito para este público nos últimos anos, Harry Potter, veremos que é plenamente compreensível o estrondoso sucesso que faz entre os jovens. Simplesmente por oferecer-lhes algo essencial, nesse escasso mercado da literatura voltada aos jovens: riqueza imagética, personagens ricos, fantasia verossímil – o famoso “mas bem que podia ser” – e aventuras, das quais quase todos os leitores desta faixa etária gostariam de participar. No cenário nacional, exemplos bem-sucedidos podem igualmente ser elencados por estas mesmas razões. Veja-se o Diário de Pilar, de Flávia Lins e Silva, em suas distintas aventuras mundo afora. Ou seja, são livros que os adultos também apreciam. Por vezes, ocorre o contrário: são os jovens que se apropriam destes, como o ocorrido com Gulliver e Os três mosqueteiros, apenas para citar dois exemplos bastante conhecidos.

A desastrosa ideia de que a literatura, especialmente aquela dedicadas às crianças, não deve ser meio para forjar valores, de prover ensinamentos úteis à vida, vai de encontro à própria origem dos contos infantis, em sua tradição oral e posterior recolha, assim como presente no surgimento de obras originais. Não é à toa que “O patinho feio”, de narrativa tão simples, faz tanto sucesso entre as crianças e ascendeu o seu autor, Hans Christian Andersen, ao posto de um dos maiores da literatura infantil de todos os tempos.

Causa-me profundo espanto quando me deparo com alguns títulos nas prateleiras das seções infantis de algumas livrarias. Chego a acreditar que, infelizmente, bem além de fornecer-lhes conteúdo com real utilidade, tentam colocar-lhes ao alcance temáticas que não se condizem com a faixa etária, com o seu momento de vida. Como não podem ser compreendidas livremente por estes, será requerido um mediador da leitura que possa lhes influenciar um posicionamento diante destas. Ferindo, mortalmente, por assim dizer, a magia da leitura literária: a livre interação do texto com o leitor e este com aquele, sem intermediários e os seus conceitos prévios.

A literatura infantil e juvenil – por todo o mundo – precisa urgentemente retornar às origens, à boa qualidade das narrativas, semelhantes àquelas da saudosa e tão querida D. Rita, que encantava, ensinava e nos fazia querer mais e mais. Por serem autênticas, o conto pelo conto, o encantamento de não ter outro objetivo senão o de encantar os destinatários. D. Rita, em sua simplicidade, nos dias de hoje, poderia ensinar muitas coisas a tantos catedráticos encastelados… E por falar nisso, estórias com castelos fornecem há séculos bons motes e despertam o interesse da criançada, o seu imaginário. Há aqueles que lutam incansavelmente contra os malvados e perversos, embora muitos prefiram torcer por estes últimos, talvez enganados pelas aparentes vantagens de que dispõem para as batalhas a travar. Mas, mesmo assim, quando tudo parece estar perdido, apesar de todas as aparentes dificuldades, o bem sempre vence o mal, pois esta é a Lei da Vida. É uma insofismável regra universal e por isso mesmo tão presente na LIJ, para ensinar a todos que enquanto há vida, há esperança… e que depois das dificuldades, mesmo as mais árduas, bons tempos sempre hão de vir!

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