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Cinzas de um novo país

Julliene Salviano

Publicado

em

Carl de Souza/AFP

Pelas mãos de uma mulher jovem, hábil, culta e dedicada ao dever, nascia o Brasil num 2 de setembro. Austríaca de nascimento e brasileira de coração, D. Leopoldina assinara a Independência do Brasil no Palácio de São Cristovão, ao lado de José Bonifácio, nosso patriarca da Independência. Ela merece o título de matriarca da Independência.

Leopoldina sempre esteve atenta ao desenrolar das agitações políticas no Brasil e em Portugal. Apesar de jovem, a Imperatriz teve em seu país natal um preparo de alto nível e digno do cargo que ocupava. Ela previra e alertara o advento da Independência, e coube a ela ser firme e enérgica, utilizando seus atributos de chefe interina de governo para convocar uma reunião do Conselho de Estado, em que assinou o decreto.

Em seguida, enviou uma carta a D. Pedro, que estava em viagem, para que ele proclamasse a Independência do Brasil. A carta chegou em 7 de setembro de 1822. Enquanto aguardava o retorno dele, Leopoldina, como governante interina, idealizou a bandeira do país. Foi de fato a nossa primeira governante. 

Ferros retorcidos, vigas dobradas, tijolos chamuscados, tetos e pisos desmoronados. Desgraçadamente, também num 2 de setembro, assistimos o mesmo local – onde viveu Leopoldina e nasceu o Brasil – arder em chamas.

Virou cinzas. A Sala do Trono não existe mais. A Sala dos Embaixadores acabou. Evidências de tribos indígenas foram extintas e riscadas da história como se nunca tivessem existido. Nunca mais veremos o Júpiter que assistiu, no teto da sala, a assinatura da nossa Independência.

Os tetos de oratório de Tereza Cristina, as imagens de deusa Diana, os cupidos, os vitrais que representavam Dante e Beatriz, as pinturas renascentistas que pareciam esculpidas. Tudo queimou!

Os afrescos de Pompéia, um presente do Rei das Duas Sicílias para sua irmã, a Imperatriz Tereza Cristina, que teria vindo do templo de Isis, da cidade de Pompéia, sobreviveu à terrível erupção vulcânica que acabou com a cidade italiana, mas não resistiu ao descaso brasileiro.

E as múmias… Ah, as múmias de D. Pedro II. Vindas, em maioria, de Tebas, foram arrematadas pelo Imperador em 1826. Havia entre essas uma múmia em especial, de uma sacerdotisa cantora do templo de Karnak, Sha-Amun-En-Su, que o Imperador conservava em seu escritório. Alguns dizem que ele conversava com ela em seus momentos de solitude. Esta foi um presente que ele recebeu quando visitou o Egito. Por sinal, tínhamos uma múmia de uma aranha que já está extinta no Egito.

D. Pedro II e Tereza Cristina eram apaixonados por arquelogias e chegaram a financiar escavações e expedições. Em 2010, seus documentos de viagem, cartas e anotações, foram reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como patrimônio da memória do mundo.

Um dos itens mais famoso do acervo é o meteorito de Bendegô, descoberto no nordeste brasileiro. Foi D. Pedro II quem organizou a expedição para levá-lo ao Rio de Janeiro. Os políticos da região fizeram de tudo para impedir que ele chegasse ao destino, algo bem típico do país. Machado de Assis até escreveu uma crônica em que previu que o meteorito iria sucumbir diante da burocracia brasileira. Quase, mas este sobreviveu!

Doado ao então Príncipe Regente, D. João, o Trono de Daomé, que governava o território da África Ocidental, também foi perdido. Além dos milhões de insetos, dos dinossauros, da múmia do índio Aymara encontrada no lago Titicaca. Eram 20 milhões de peças.

Em 6 de junho de 1818, Dom João VI criava o primeiro museu brasileiro na cidade do Rio de Janeiro, o então Museu Real, hoje Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A primeira sede da instituição foi no Campo de Santana, no centro da cidade do Rio de Janeiro, onde hoje se encontra instalado o Centro Cultural Museu da Casa da Moeda.

Entre as suas decisivas contribuições para a história do Brasil, posso destacar que foi através das relações da nossa Imperatriz que vieram para o país diversos naturalistas europeus, realizando inúmeras coletas e estudos bem como a documentação de diversos aspectos antropológicos e culturais. Sem contar com as aquisições de acervo realizadas pelo Imperador Dom Pedro I (1798-1834) para as coleções da instituição, como alguns dos primeiros artefatos do Egito Antigo a serem depositados em um museu nas Américas.

Com a proclamação da República, houve um movimento da classe política para descaracterizar os símbolos que remetessem à monarquia. Por isso, a antiga residência de D. Pedro II no Paço de São Cristóvão, o maior incentivador das ciências do seu tempo, em 1892, tornou-se a sede do Museu Nacional.

O museu em seu início foi feito com a coleção da Imperatriz Leopoldina, que tinha um compromisso de ilustrar e fazer circular um conhecimento melhor sobre o Brasil. Ela o fez através da botânica, da zoologia e da mineralogia. Poucos sabem, mas a Imperatriz era uma cientista; ia a campo coletar e estudar amostras. Além de tudo, parece que também perdemos as pinturas botânicas da Imperatriz.

O acervo foi construído por:

José Bonifácio de Andrada e Silva;

Imperatriz Leopoldina;

Dom Pedro I;

Dom Pedro II;

Imperatriz Tereza Cristina;

Princesa Isabel;

Aqueles que nunca estiveram no museu, podem perceber o que perderam e sentir o arrependimento de não o terem visitado. Mas quem o visitou tem a certeza da magnitude da tragédia.

Quantas importantes peças, que não receberam a devida atenção, jamais serão estudadas? A tragédia anunciada levou parte da história e da memória brasileira. O prédio fazia 200 anos.

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Gestora Pública, paisagista e assessora de imprensa.

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