Crônica de canteiro — a cegueira seletiva do brasileiro médio

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Imagem: Reprodução

Em meio a um canteiro de obras os peões reuniam-se em grupos e patotas a esperar o horário de bater o ponto. Em um lado juntavam-se uns fumantes, em outro os mais de idade, em outro, ainda, alguns encarregados e engenheiros. Eu, que sou ali como uma borboleta num aquário, sentei-me numa pedra, ao sol, e olhava por cima dos óculos escuros aquelas pessoas jogando conversa fora. Uma dessas patotas tomou-me a atenção e me fez voltar os ouvidos — tirei os fones que tocavam Mozart — e me vi a fita-los.

— Hoje eu como aquela nega — Dizia o careca, de barba malfeita e acima do peso.

— Me dá um cigarro — falou um grandalhão, magrela, bem o perfil físico de um eletricista.

— Que jogo da peste foi aquele?! Gol da besta fera…. — Vibrava o entusiasmado moreno com seu copo de café.

— A bicha é fogosa que só o cão… — continuava o gorducho.

— Gosta de Derby não? — Prosseguia aquele que acho que é um eletricista.

— O atacante levou o jogo nas costas… — Vibrava ainda o moreno.

— Hoje eu me acabo…

— Cigarro bom é Derby, otário…

— Mas se não fosse o goleiro…

— Umas nove horas vou lá… o marido dela vai estar trabalhando…

— Esse cigarro fede muito, pelo amor de Deus…

— Juiz ladrão da peste…

E nessa conversa proveitosa e organizada um deles comentou da crise e falou com muita propriedade de política — na cabeça dele — e soltou uma:

— Mas não tem quem diga que Lula não foi o melhor presidente do Brasil! Naquele tempo que era bom… tinha emprego pra todo mundo… agora com essa crise tá ruim, e ainda querem passar a tal da reforma.

E nos próximos cinco minutos reclamaram da viadagem nas escolas, da taxação progressiva de impostos, do mimimi das mulheres artistas e negras, do baixo padrão cultural, do Pabllo Vittar, do preço da gasolina, da corrupção, da criminalidade e da impossibilidade de se defender, das regalias para bandidos, das contradições dos direitos humanos, do desemprego, e de todos os problemas — e doutrinas — que a esquerda trouxe para o Brasil. Mas concordavam:

— Naquele tempo de Lula véi que era bom… meu voto é dele e não tem quem me tire. Pode até ter roubado, mas pelo menos fez alguma coisa… roubar todos roubam.

Voltei a colocar os fones de ouvido, tomei a fila e bati o ponto. Entrei no ônibus e me pus a questionar ironicamente e com muito bom humor: se caso um dia o diabo deixasse a terra, as pessoas teriam um sentimento nostálgico e doentio a ponto de dizerem coisas do tipo (?): naquele tempo que era bom, hoje é homem casando com homem, caba veio pelado sendo tocado por criança na rua, maconheiro cantando na TV, político roubando e não indo pra cadeia… é só viadagem nas escolas, taxação progressiva de impostos, mimimi das mulheres artistas e negras, baixo padrão cultural, Pabllo Vittar, preço alto da gasolina, corrupção, criminalidade e impossibilidade de se defender . . . etc.

Ri um pouco ao som de Chopin e fui acordado de meu devaneio ao me questionarem:

— Que foi, peão?

Autor: Anderson C. Sandes

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