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Sobrevivente do Holocausto de origem brasileira tem ‘Bar Mitzvá’ aos 91 anos

Thaís Garcia

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Imagem: Memorial do Holocausto de São Paulo

Aos 91 anos, o sobrevivente do Holocausto, Andor Stern, não teme mais os nazistas que o prenderam em Auschwitz. Stern nasceu na cidade de São Paulo, onde foi recebido de volta após sua fuga da Europa.

Esta segunda-feira (11), foi um dia único em sua vida. Stern, que é reconhecido pela Associação Brasileira de Sobreviventes do Holocausto e em todo o país como o único sobrevivente do Holocausto nascido no Brasil, comemorou seu ‘Bar Mitzvá’ com um atraso de apenas 78 anos.

O Bar Mitzvá é a cerimônia que insere o jovem judeu como um membro maduro na comunidade judaica. Quando um judeu atinge a sua maturidade, aos 12 anos de idade para as meninas, 13 anos de idade para os meninos, passa a se tornar responsável pelos seus atos, de acordo com a lei judaica. O menino passa a ser “Bar Mitzvá” (filho do mandamento); e a menina passa a ser “Bat Mitzvá” (filha do mandamento).

Cheia de simbolismo, a emocionante cerimônia foi realizada na sinagoga mais antiga de São Paulo, Kehilat Israel, no dia em que a associação marcou o 81º aniversário da Noite dos Cristais, o pogrom nazista contra os judeus, na noite de 9–10 de Novembro de 1938, pela Alemanha e Áustria levada a cabo pelas forças paramilitares das SA e por civis alemães e que mais marca o início do Shoá (Holocausto).

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A tatuagem do campo de concentração de Andor Stern é vista, apesar das tiras de tefilim. Foto: Memorial do Holocausto de São Paulo.

“Esta é a nossa resposta a Hitler e ao nazismo. O objetivo de Hitler não era apenas um massacre físico do povo judeu, mas também um extermínio espiritual. Ele falhou. O Sr. Stern continua, conectado à sua essência, celebrando a vida com sua família”, disse o rabino Toive Weitman, chefe do memorial do Holocausto de São Paulo que liderou a cerimônia, à Agência Telegráfica Judaica.

Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto de Curitiba, disse que o exemplo de Stern – o sobrevivente mais antigo do Holocausto retornando à sua religião e tendo um Bar Mitzvá – tornou-se cada vez mais comum nos últimos anos em todo o mundo.

“Isso ajuda a construir a memória da Shoá, destacando a resiliência e a importância da identidade judaica. No entanto, existem milhares de crianças que não tiveram essa oportunidade porque suas vidas foram encurtadas”, disse Reiss à JTA.

Stern tinha 3 anos quando seu pai foi transferido para a Índia, no início dos anos 30, pela empresa multinacional de mineração em que trabalhava. Em 1936, a família se mudou para a Hungria, onde seus avós moravam. Mais tarde, ele se escondeu com eles quando os primeiros atos antissemitas começaram.

Além de judeu, Stern era brasileiro. Quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial e enviou tropas para lutar pelos aliados na Itália, o garoto foi considerado inimigo do Estado e foi enviado a um campo de trabalho na região dos Baixos Cárpatos, de onde fugiu.

Mas sua liberdade durou pouco. Em abril de 1944, os Sterns foram jogados no vagão de um trem de carga indo para Auschwitz, e ele passou 13 meses lá. Sua mãe e avós foram mortos nas câmaras de gás do campo da morte.

“Vi minha mãe saindo da chaminé em 6 de outubro de 1944. É incomodo ter que lembrar disso, mas me lembro de tudo. Eu estava fora do mundo até 1º de maio de 1945, quando fomos libertados pelos soldados americanos. Eu tinha 17 anos e pesava 28 quilos”, disse ele em recente entrevista.

Freddy Glatt, nascido na Alemanha e presidente da Associação Brasileira de Sobreviventes do Holocausto no Rio, viveu uma situação semelhante à de Stern depois que sua família foi forçada a se mudar para a Bélgica. Mas ele milagrosamente escapou da deportação para os campos ao se aproximar da fronteira entre a Alemanha e a Holanda.

“Não havia rabino, talit, tefilim ou Torá. Andor tem minha idade hoje. Desejo a ele mazel tov”, disse ele, orgulhoso de seu próprio Bar Mitzvá, aos 85 anos de idade no Rio.

Em 1948, Stern voltou ao Brasil, casou-se e teve cinco filhas. Ele tem nove netos e não consegue mais acompanhar o número de bisnetos.

“Um psiquiatra me disse uma vez que todo mundo que passou pelo que eu passei na guerra nunca mais estará completo, nunca deixará o campo de concentração. Deixei para trás, tenho sorte. Eu não sou um herói. Apesar de tudo, sou muito grato à vida por tudo”, disse Stern.

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Correspondente Internacional na Europa. Cristã, casada, mãe e bacharel em Relações Internacionais. Lutando pelos verdadeiros direitos humanos e pela Igreja Perseguida.

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