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COLUNA: Uma geração vitimista que só quer direitos e desconhece deveres

Filipe Altamir

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Flickr | R. Halfpaap

A era tóxica dos direitos inacabados e abstratos contaminou muitos dispositivos constitucionais e reflete uma sociedade moralmente doente e inerte, em que as gerações mimadas demandam inúmeros direitos e regalias mágicas sem tato nenhum com a realidade, mas ao mesmo tempo não possuem a noção básica de que para cada direito existente ou positivado, há uma imposição de um dever para outrem para que esse mesmo direito seja garantido. Ao afirmar que você tem direito à educação, você terceiriza uma responsabilidade individual a um conjunto de pessoas cuja obrigação seria cumprir aquilo que dependeria unicamente da sua disposição.

Você não tem direito à educação nem direito à saúde. Isso é pensamento metonímico. Você contrata e paga por serviços prestados de tratamento de saúde e serviços de prestação de tutoria sobre diversas áreas do conhecimento. O Estado não te proporciona saúde, pois isso é impossível. Afirmar que o direito à saúde existe é ignorar que a saúde comporta vários aspectos que são impossíveis de serem alcançados mediante uma prestação estatal. O que seria saúde? Existe a saúde fisiológica e saúde psicológica, e para atingir uma saúde completa você teria de ter uma plena ordenação em todos os aspectos materiais que contribuiriam para você atingir a saúde mental e corporal.

Você precisaria se alimentar bem, manter seus níveis de colesterol equilibrados, o pleno funcionamento do seus órgãos e cultivar uma vida equilibrada em todos os aspectos – material, social, amorosa – para atingir um nível satisfatório de saúde mental. Nada disso pode ser fornecido pelo Estado. Afirmar que você teria direito à saúde seria afirmar que o Estado tem a obrigação, mediante coerção e impostos, de equilibrar seus níveis, de manter seu corpo perfeitamente harmônico como idealmente deve operar e contribuir para que sua vida tenha equilíbrio social em fatos que competem somente a você, não aos outros.

Afirmar que possui direito à educação é conferir ao Estado coercitivo uma iniciativa de foro íntimo que só caberia a você. Nada adianta uma prestação de serviço com tutoria por um professor – responsável por te guiar na busca do conhecimento e sabedoria – se você não tomou a iniciativa e proatividade de abstrair o conhecimento segundo as orientações de um professor. A disposição íntima e pessoal de perquirir o conhecimento parte unicamente de sua consciência pessoal e de uma ação proveniente de um estado de insatisfação com a própria ignorância. Alguns sentem-se desconfortáveis com uma zona de desconhecimento permanente, outras não.

Essa noção mimada e completamente tóxica de uma procura inesgotável por direitos inexistentes parte de uma mentalidade pobre em imaginário completamente incapaz de conceber e imaginar as consequências de suas próprias demandas e ações. O pensamento metonímico e a confusão linguística empobrece o debate e gera uma confusão mental sem precedentes na mente de um analfabeto funcional. E muitos analfabetos funcionais ocupam cargos importantes e operam na sociedade como influenciadores e formadores de opinião, corrompendo a cultura e deturpando o imaginário coletivo da época.

Muitos fazem uma confusão dos demônios em cima de muitos conceitos. As feministas costumam confundir liberdade com a supressão do pensamento e juízo de valor alheio. Quando uma universitária de cabelo raspado e axila sem depilar afirma que tem o direito de ser livre para fazer o que quiser sem ser chamada de “vagabunda”, ela confunde liberdade com a mordaça do pensamento alheio. Ela acha que liberdade implica no controle do julgamento da sociedade, que nada mais é que uma manifestação legítima da liberdade de expressão de outras pessoas sobre suas ações. Você continua sendo livre, e o juízo de valor não é coerção. Confundir opinião negativa e crítica com coerção é outra confusão conceitual e linguística propalada pelos movimentos coletivistas, e o feminismo é campeão nisso.

Isso revela um fato que é deliberadamente ocultado por muitos movimentos sociais que capitalizam o vitimismo: no fundo, tudo se trata do medo do julgamento, não de reivindicação de direitos. Uma mulher tem o direito de fazer o que ela bem entender, assim como o homem, mas não temos o direito de neutralizar as consequências de nossas ações, incluindo aí também as críticas, os juízos de valores e opiniões sobre o que fazemos e deixamos de fazer. Conviver em uma sociedade livre é compreender que a nossa liberdade e nossas ações serão julgadas, e esses julgamentos são manifestações legítimas de pensamento. A reclusão radical e a cultura nociva do “não ligar para as críticas” também contribui para uma geração mimada estagnada que demanda da sociedade o pleno apoio para as suas ações mais desastrosas e autodestrutivas. Ninguém é obrigado a te achar bonito, a aprovar suas ações e concordar com o que você faz; você não tem direito de exigir aprovação alheia, e nem tem o mínimo direito de suprimir a manifestação de pensamento alheia sobre suas condutas.

Escritor formado em Direito, conservador e analista político.

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