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Independência e chamas

Este artigo foi escrito no dia 2 de setembro de 2019.

Julliene Salviano

Publicado

em

Independência e chamas 16
Tânia Rego/Agência Brasil

Poucos brasileiros sabem, mas quem assinou a nossa independência foi uma mulher de 25 anos. Foi Dona Leopoldina, a nossa então Princesa regente (tornou-se Imperatriz em 12 de outubro de 1822), que diante das pressões portuguesas, que queriam fazer o Brasil retornar ao status de colônia, tomou a decisão e com sua caneta sacramentou a independência deste país num dia como esse, 2 de setembro de 1822, ao lado de José Bonifácio, nosso patriarca. Ela seria a nossa matriarca da independência. Mas pouco mérito ou reconhecimento é dado aquela que aos 20 anos deixou sua terra natal e veio ao Brasil para aqui se encantar pela gente e pela terra – padecendo nas mãos dos maus tratos e humilhações do então Imperador Pedro I.

Não foi Leopoldina uma mera espectadora da política que levou a separação de Brasil e Portugal, mas foi ela uma das sua principais articuladoras. Sendo uma Habsburgo, foi criada para governar e “Abraçou o Brasil como seu país, e os brasileiros como seu povo e a independência como sua causa”, segundo o historiador Paulo Rezzutti, autor do livro “D. Leopoldina – a história não contada: A mulher que arquitetou a independência do brasil”.
Se os professores de história, em sala de aula, não revelam aos seus alunos a verdade, ao menos aqui faço a justiça necessária. E não acreditem na bendita falácia de que “no Brasil nunca teve guerra” ou que “A independência do Brasil foi pacífica”. Pois sim, o que estava então fazendo Maria Quitéria no fronte de batalha guerreando contra os portugueses? Ou porque morrera Joana Angélica com um ferimento de baioneta? Não podemos nunca esquecer e deixar de sermos gratos a aqueles que dedicaram suas vidas a nossa nação.

Neste mesmo fatídico 2 de setembro, há um ano atrás, assistimos o local onde foi assinada a Independência do Brasil, o Museu Nacional, arder em chamas. Lembro-me até hoje daquela madrugada maldita, em que todo o país “chorava as chamas” e descobria a importância daquele local e de como a nossa história estava vulnerável a destruição.

O pior foi saber que aqueles artefatos que eram ali exibidos pertenciam a coleção particular de Dona Leopoldina, José Bonifácio e Pedro II. Nossa história e nossa independência reduzida a cinzas. Não sei o quanto de revolta ainda cabe no coração do brasileiro, mas com essa ao menos devemos aprender.

É necessário para a esquerda apagar a história para que sua narrativa floresça sem empecilhos, para que ela possa reescrever a história sem que os fatos venham lhe desmentir. Como me disse um amigo policial “Se não foi criminoso, foi então criminoso”. Faz algum sentido deixar o nosso patrimônio histórico nas mãos daqueles que seguem uma ideologia que prega a sua destruição? Até hoje muito mistério ronda o incêndio do mais antigo museu do Brasil. Dias antes do museu pegar fogo, ativistas denunciaram o risco, em vão.

O Museu Nacional, que naquele mesmo ano completava 200 anos, abrigava um acervo de 20 milhões de itens, incluindo documentos da época do império; fósseis; coleções de minerais; artefatos greco-romanos; e ainda a maior coleção egípcia da América Latina (Pertencente a D. Pedro II ). Além do famoso esqueleto de um dinossauro, que foi encontrado em Minas Gerais e do mais antigo fóssil humano descoberto no atual território brasileiro. Em janeiro deste ano o museu inaugurou sua primeira exposição, após o incêndio, no prédio da casa da moeda. A UFRJ, responsável pelo mesmo, criou comitês de reconstrução e as obras emergenciais custaram 11 milhões até agora, parte do acervo (que restou) deve reabrir ao público em 2022.

Ao menos aquele fogo iluminou a consciência dos brasileiros, que de uma hora para outra descobriram sua importância e se atentaram ao risco que todo o nosso patrimônio corre. Lamento muito pelas gerações futuras que jamais conhecerão essa parte da nossa história. Carioca que sou, tive a oportunidade de passar vários domingos de minha infância naquele local que já não mais existe.

De pouco em pouco, atos criminosos queimam o nosso patrimônio, seja histórico ou natural e, de certa forma, o fogo criminoso que hoje “devasta” a amazônia, é também um ataque àquela que se dedicou a estudar nossa fauna, flora e o nosso minério para sua catalogação e preservação – a eterna Dona Leopoldina.

Que as chamas possam arder nos corações dos brasileiros e acender o amor à pátria.

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Gestora Pública, paisagista e assessora de imprensa.

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