Redes Sociais

Artigo

Eu O vi carregando o madeiro

Francisco Teodorico

Publicado

em

Eu O vi carregando o madeiro 15

Você já fez seu propósito de quaresma? Conheça o meu:

No segundo semestre do ano passado, para ser mais exato, em Outubro de 2018, minha casa, em Ribeirão Preto – SP, passava por uma longa reforma que atravessou o semestre. Foi nesse período que conheci Kleber.

Ao acompanhar o pedreiro até a porta, ao final do expediente, avistei, em frente a minha casa um senhor alto, negro, de cabelos grisalhos arrastando uma árvore do tamanho de um carro popular (não é exagero, nem linguagem poética!). A evolução do trajeto era centímetro a centímetro.

Aquilo me chamou a atenção, pois o homem suava feito uma cachoeira, não dizia ou esbravejava com nem uma palavra negativa sequer, como se estivesse grato por poder fazer aquele esforço todo. Então eu perguntei para onde levaria aquele “monstro” verde. Ofegante, ele respondeu que havia terminado de fazer seu serviço de jardineiro e que estava levando para o terreno ali próximo (entre 50 e 100 m de onde estávamos).

Eu O vi carregando o madeiro 16

Até esse momento, sua voz era calma e tranquila, não havia soltado um lamento sequer, quer seja pelo calor, quer seja pelo esforço ou qualquer outro motivo que certamente ele tinha.

Como o pedreiro não ofereceu ajuda, não me contive, e apesar de não ter uma estrutura física muito favorável, lá fui eu ajudá-lo. Agora os avanços não eram mais medidos em centímetros, mas em decímetros. E em nosso esforço, ambos suando, arrastando aquela árvore em direção ao destino, tivemos uma conversa agradável, onde pude perceber a educação e a serenidade de Kleber, que chegou até a citar detalhes sobre a vida de São Francisco de Assis, devido ao meu nome.

Eu O vi carregando o madeiro 17

Finalizado o trabalho, perguntei a ele se tinha água no local de trabalho (casa próxima à minha). Ele disse-me que o proprietário havia saído, ele ficou para fora com sua bicicleta e que não tinha como saciar a sede. Ofereci água. Ele pediu para encher sua garrafa pet na torneira, o que não permiti e o fiz com água gelada. Foi assim que conheci um homem chamado Kleber.

Alguns minutos depois, Kleber toca o interfone de minha casa e, muito envergonhado, solicitou-me um favor: se eu poderia emprestar-lhe R$ 10,00 pois estava sem dinheiro e o dono da casa ainda não tinha voltado. Como garantia, ofereceu deixar as ferramentas de trabalho (jardinagem) comigo. Eu emprestei, mas recusei as ferramentas como garantia. Porém não houve quem convencesse Kleber do contrário, e tive que aceitar suas condições. Prometeu-me vir no dia seguinte liquidar o “empréstimo”.

Passaram-se três meses e eu já não tinha mais a esperança de rever Kleber (sequer atendia o telefone; eu estava preocupado por ele não ter as ferramentas em mãos para poder trabalhar).

Então, meu interfone toca. Era Kleber que veio quitar o “empréstimo”. Pediu mil perdões, muito envergonhado, por não ter honrado com o compromisso no dia seguinte. Durante esse período intermediário, houve uma tempestade em minha cidade e sua casa foi destruída pela enchente, teve de reconstruí-la e procurar trabalho. Não consigo nem imaginar quanta dificuldade ele enfrentou. Mas lá estava ele, como homem honrado que é, cumprindo com o que prometeu, com o dinheiro para me pagar. Obviamente não aceitei a quitação e depois de muita insistência, aceitou que eu tivesse um crédito para que ele executasse, futuramente, algum serviço em minha casa.

Passadas algumas semanas, voltava eu de um passeio com minha filha e nossos cães, lá estava Kleber, com sua bicicleta em frente à minha casa, conversando com minha esposa. Havia colhido uma jaca e queria saber se estávamos interessados em comprá-la. Nunca compramos uma fruta assim antes (interprete como quiser).

“35 porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; 36 nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. 37 Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38 Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? 39 Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? 40 Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim mesmo que o fizestes.”

(Mateus 25, 35-40)

Passamos mais um tempo sem notícias de Kleber, até o sábado de Carnaval, quando minha esposa e filha foram viajar para a casa de minha cunhada e eu fiquei em casa cuidando de nossos “familiares de quatro patas”, meu filhote de dinossauro e meu velhinho que mais parece chulé…

Meu interfone tocou. Fui atender e vi que era Kleber, acompanhado de sua bicicleta, a mesma camiseta, sua educação, formalidade e serenidade de sempre.

Perguntou-me se eu tinha algum trabalho que ele pudesse executar. Eu disse-lhe que, como ele havia me informado que além de serviço de jardinagem (diga-se de passagem, jardinagem ornamental, também!) ele fazia limpeza de caixa de gordura, precisaria, sim, porém, na semana seguinte. Foi quando vi a esperança transbordar de seus olhos em forma de lágrimas.

Perguntei-lhe o que estava acontecendo. Ele, tentando manter a dignidade perguntou-me novamente se não havia nada que pudesse fazer como varrer o chão, lavar as paredes, qualquer coisa… Kleber relatou-me que estava há cinco dias procurando trabalho e não encontrava nada para fazer.

As palavras começaram a fugir-lhe da boca e então o interrompi, dizendo que já havia entendido. Eu percebí a gravidade da situação. Disse-lhe, então, que tinha trabalho, sim, mas que como não costumava manter dinheiro em casa, não seria de grande ajuda. As lágrimas retesadas correram-lhe pelo rosto ao mesmo tempo que pedi-lhe um instante para verificar se eu tinha alguma reserva para “emprestar-lhe”. Ele negou-se a aceitar, pois sabia, pelo precedente, que não seria um “empréstimo”.

Naquele momento de “desespero”, eu ofereci que me acompanhasse à mesa, para almoçarmos, juntos. Ele também agradeceu e mais uma vez, com os olhos cheios marejados recusou, com uma educação que vi em poucas pessoas em minha vida, dizendo que não podia aceitar, pois seu “pessoal” estava esperando em casa por ele e isso não seria justo.

Perguntei-lhe qual o valor do trabalho dele para limpar minha caixa de gordura. Disse-me: “o que o senhor puder me dar.”

Eu O vi carregando o madeiro 18

Como eu disse, não costumamos ter dinheiro em casa, mas naquele sábado, por mais incrível que pareça, pela Graça de Deus, eu tinha! Alguns podem chamar isso de coincidência, eu chamo de Providência…

Antes dele começar o trabalho, ofereci novamente o almoço, dizendo que seria mais prático ele se alimentar antes de começar o duro trabalho e que eu faria uma espécie de marmita, num recipiente plástico, para que levasse para sua família. Novamente ele recusou, educadamente, dizendo que queria terminar logo o trabalho para atender à sua família.

Enquanto Kleber, muito caprichoso, trabalhava, perguntei a ele se tinha filhos pequenos em casa, pois referia-se à sua família apenas como “meu pessoal”. Ele disse que sim. Então separei cuidadosamente cada tipo de alimento separado dentro do recipiente com papel alumínio e também alguns doces que tínhamos em casa.

Ao ver o cuidado que tive, ele, emocionado, disse-me: “não precisava tudo isso, sr. Francisco! Bastava colocar dentro de uma sacola de plástico…” Meu coração apertou-se naquele momento. Que tipo de humilhação aquele homem honrado não deve ter passado na vida para dizer algo assim?

Resgate

Quando eu menos merecia,
Quando sequer
calçar as sandálias em João Batista
Eu deveria,
E não sonhava mais nem
Ser Zaqueu,
Deus me chama
A ser um cirineu.

(Francisco Teodorico, Mar2019)

Todas as vezes que vejo aprovação de fundos milionários para campanhas políticas, sociopatas fazendo comício em eventos fúnebres, desvio de verba pública, etc. lembro-me de quantos “Kleberes” não estão surgindo pela quantidade de empregos e trabalhos que deixam de ser gerados.

Tive algumas ideias para ajuda-lo (cartões de visita, indicar seu trabalho a amigos, procurar algum vereador ou grupo paroquial para encaminhá-lo a uma solução definitiva, desnvolver projetos artesanais do Pinterest, etc.), mas se alguém puder ajudar com outras, não hesitem em fazê-lo. Peço a ajuda de algum profissional de marketing, alguém que possa oferecer um emprego, um trabalho, uma ideia de como ajudar, qualquer coisa, menos dinheiro, pois isso ele não quer.

Ao nos despedirmos, Kleber disse-me: “Sr. Francisco, hoje o senhor me salvou!” ao que respondi: “Não, Kleber, quem o salvou foi você, há muito tempo atrás, quando decidiu ser o homem que você é hoje, pois aprendeu, apesar das dificuldades incomensuráveis, e colocou em prática as lições dAquele que morreu para nos salvar. Quem dera em nosso país tivéssemos mais pessoas como você. Não existiriam outros “Kleberes” em busca de trabalho sem encontrar.”

Eu O vi carregando o madeiro 19

Mal sabe ele que na verdade não fui eu quem o salvou, mas ele, a muitos de nós (me incluo nesse grupo) que tiveram a oportunidade de conhecê-lo direta ou indiretamente.

Eu gostaria de dizer, como fazia quando criança que “quando eu crescer quero ser como Kleber”, mas para mim não dá mais… Quem sabe para você ainda não seja tempo, não é?

Se você que está lendo este artigo for da cidade de Ribeirão Preto – SP (ou conhecer alguém daqui) e puder ajudar contratando-o para serviços de jardinagem, limpeza de caixa de gordura, pequenos consertos, pode obter os dados dele em:

Cartão virtual – Kleber
https://about.me/kleber

Nossas últimas palavras de despedida, um para o outro, foram:

“Fique com Deus!”

Tive a sensação, em meu coração, que eu já estava.

Eu O vi carregando o madeiro 20

Eu O vi carregando o madeiro 21
(Fotos by “minha filha”)

PS: Não tomei essa iniciativa esperando que Deus me recompense, mas para compartilhar uma parte ínfima do “mais que suficiente” que Ele me deu. Faça o mesmo, deve haver “Kleberes” em sua cidade, também. Porém, sempre com o cuidado de usar o discernimento.

Agradecimentos especiais:

  • A Deus, pela oportunidade de retribuição;
  • Minha filha, que ficou na janela ouvindo minha conversa com Kleber, quietinha e depois ajudou, fotografando-nos;
  • Thais Garcia, correspondente internacional do Conexão Política, que deu nome a esse artigo;
  • Aos amigos selecionados que ajudaram a escolhê-lo, pouco antes da publicação, pois tenho certeza de que Deus agiu através deles para que esse texto chegue a quem possa transformar meu propósito em realidade e deixe de ser uma ajuda pontual. A fome tem pressa.
Ajude-nos a mantermos um jornalismo LIVRE, sem amarras e sem dinheiro público. APOIAR »

Pai, casado, católico, matemático, analista de sistemas, pós-graduado em Gestão de TI (USP), enxadrista, karatedoka, especialista em Gestão do Tempo.

Parceiros

Publicidade

alan correa criação de sites