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Espiral do silêncio e o terrorismo virtual do século XXI

Esta espécie de júri popular exerce um ‘olhar público’, um tipo força expositora do indivíduo.

Coluna do Isentões

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Ilustração: Caio Borges

A ideia de liberdade, além de ter nascido e ganhado espaço no seio do Ocidente, não possui qualquer valor universal. A saber, a liberdade é filha da liberdade de consciência e mãe da liberdade de expressão, mas elas compõem uma frágil, confusa e jovem família no mundo das ideias – basta uma rápida olhada em como vivem as mulheres nos países árabes para fazer tal constatação. A independência individual é a materialização da liberdade da consciência, fonte de todas as outras liberdades e condição indispensável para a existência da individualidade humana. A liberdade de expressão, por exemplo, está entre os princípios que constituem uma sociedade democrática e uma república federativa, conforme está previsto no art.5°, inciso IV da Constituição Federal Brasileira de 1988. Ser livre, então, pode significar o direito de agir segundo o seu livre arbítrio e de acordo com a própria vontade, desde que, não prejudique outra pessoa, afinal, seu direito termina onde começa o direito do próximo. Liberdade também é sinônimo de independência, entretanto, causa dor de cabeça à quem tenta explica-la filosoficamente ou enquadra-la numa ideologia – algo que a esquerda tentou e fracassou através de incontáveis autores, mas nunca abandonou a prática de vender como deleitável, a ideia de trocar sua intelectualidade e independência pela eternidade ignorante do mundo coletivista paterno-estatal. 

Outrossim, há o senso entre as Psicologias contemporâneas acerca da existência de normas e regras, na formação da opinião pública ou privada, bem como da consciência inata e universal do medo representado pela possibilidade de perder a liberdade e ser isolado da sociedade. Neste sentido, a Psicologia também comprovou ocorrer de forma automatizada, depois de desenvolvida, a capacidade individual de percebermos a força ou fraqueza de opiniões próprias ou alheias. Dessa forma, o grupo mais disposto a proclamar sua posição ou verdade, por exemplo, influenciará mais a opinião alheia do que um grupo que apresenta-se incerto de sua própria narrativa ou verdade – ao ponto do indivíduo pertencente ao grupo inseguro, mudar de opinião ou calar-se para não ser isolado dos demais. Em última instância, para satisfazer anseios emocionais e sociais, o indivíduo pode incorporar-se ao grupo aparentemente maior ou mais crescente. Por temer mais exílio do que o erro, tende a alterar o próprio posicionamento e adaptar-se aquilo que sociedade observa como um comportamento aceitável. Assim, a duração do efeito de uma narrativa na sociedade depende, em grande parte, da capacidade argumentativa dos seus defensores e seu empenho em defende-la. Da mesma forma que solta-se o verbo quando acredita-se estar do lado da verdade, tende-se a ficar calado diante da incerteza das ideias. A rigor, os detentores da opinião dominante sempre estarão mais dispostos a relevar sua forma de ver o mundo. Sob este prisma, a espiral do silêncio acontece quando a percepção do entorno opinativo tem mais relevância do que a própria opinião, lançando assim, uma das narrativas no esquecimento, o local demoníaco para os isolados socialmente.

O ‘olhar público’ do ‘tribunal vivo’

Cabe considerar neste contexto as modas ou tendências, como evidências sociais da necessidade individual de mostrar-se de acordo com os demais em público, no sentido de evitar a possibilidade do ridículo. É padrão, o comportamento de observar a conduta alheia, aprender quais as atitudes e opiniões são aceitáveis para a vida em sociedade, então moldar-se a elas. Ora, dedicar-se a essas descobertas e investigações, em primeira vista, é mais sedutor que perder a estima alheia, ser rejeitado, sentir-se solitário e desprezado pelos outros. Por isso, é sobremaneira afirmar a responsabilidade dos jornalistas e da imprensa, que agem como uma espécie de ‘censor intermediário da verdade’ e são, atualmente, os principais responsáveis por informar a sociedade moderna e ajudá-la a formar a opinião pública; uma espécie peso que paira sobre os ombros humanos; a personificação de um tribunal vivo; uma massa disforme e sem rosto, porém visível aos olhos treinados. Pela influência deste tribunal, a natureza social humana é compelida a tentar atrair sua simpatia, mesmo que à contragosto e ao custo de mudar opiniões ou padrões comportamentais aparentemente inofensivos à sociedade.

Tudo isso, exclusivamente, devida a necessidade de ser aceito no meio social que habita ou pretende habitar, seja ele online ou off-line. Essa espécie de júri popular exerce um ‘olhar público, um tipo força expositora do indivíduo, que obriga-o a atender suas exigências ou sofrerá as devidas consequências. O famigerado ‘assassinato de reputação’, ação comum no ambiente virtual contemporâneo, é a consequência direta da quebra de decoro das regras sociais escritas e não escritas. Uma vez execrado pelo júri, a chance do indivíduo retornar para a bolha social é quase nula. Mas, apesar de aparentar ser algo novo, esse fenômeno é milenar. Isso pode ser percebido no destino dos leprosos nos tempos Bíblicos – os doentes eram banidos da sociedade por serem diferentes dos demais. O ‘ban’ ou ‘block’ nas redes sociais, algo que virou tendência no século XXI, é considerada a melhor resposta contra o desafeto, por evitar a possível impopularidade ou a má fama, além de ser uma resposta prática às ideias desagradáveis nas redes sociais. De fato, é tentadora possibilidade de isolar alguém da sua bolha social com um simples click, mas, consequentemente, isso desencadeia a formação de grupos sociais isolados, conectados, apenas, com mentalidades similares a sua – excluindo assim, o princípio do contraditório. Desta maneira, evidencia-se o que parece ser uma prática de terrorismo virtual, pois ao ameaçar e amedrontar o próximo sob o pretexto de lança-lo forçadamente no isolamento social em caso de divergência, pode ser classificado como uma narrativa coercitiva. Logo, uma ação de terrorismo virtual.

Exclusão proposital do contraditório

“A legitimidade de um governo depende do consentimento dos que estão sujeitos a ele.” (Roger Scruton)

Pelo exposto, a reação de aprovação e desaprovação da opinião é um elemento chave do debate público saudável, em razão de usar o elemento do contraditório. Não obstante, elimina-lo, é um erro fatal e condena o debate ao inevitável distanciamento objetivo da sociedade, o racionalismo. Por exemplo, observe a falta de argumentos do internauta esquerdista e sua a intelectualidade subjetiva e desconstrutivista, que coloca-o numa posição isolada do contraditório no debate público, e o limita a viver num mundo virtual próprio, cuja única verdade é a assimilada, por osmose, através de seus mestres coletivistas. Prontamente, o olhar público atua como um tribunal de justiça online e off-line, que julga e sentencia qualquer um que o desagrade, ou vá contra os princípios impostos pelo fenômeno do ‘clima da opinião’. Este fenômeno envolve o indivíduo a partir de fora e o compele a buscar fatos que revelem a natureza da opinião pública e as distribuições de forças impulsionadoras à espiral do silêncio. Entretanto, a desenfreada busca pela verdade, quando mal desempenhada, além de resultar no isolamento de ideias divergentes, age como uma força revolucionária que destrói o princípio do contrário.

Obstante a este, quando a busca pela verdade é bem desempenhada, ela age como uma força conservadora, fomenta a coesão e adapta os indivíduos à moral e à tradição. Uma vez que a lei baseia-se em um acordo prévio da opinião pública e apresenta-se como um poder legitimador em seu princípio, não é sobremaneira afirmar que o ‘tribunal vivo’ seja o principal responsável pela criação das normais vigentes, das jurisprudências e da Constituição Federal. Tal agrave toma destaque, ao representar uma negociação entre a sociedade e as convicções individuais, pois quando a opinião pública é hegemônica e manipulada, tende a ser coletivista e facilmente controlada pelo establishment aliado a mídia estatal. É sabido que, os integrantes destes, na sua maioria, são corruptos e acostumados a desrespeitar a voz pública e o bem popular, então é natural que as normas vigentes desagradem e punam indevidamente a cidadão. Evidencia-se então, o perigo de ficar em silêncio! Enquanto o tribunal público é manipulado pelos meios de comunicação, pautas imorais são coladas em voga e assuntos cruciais para o debate público – como a diminuição de partidos políticos – são lançados na espiral do silêncio.

O ‘censor’ do Século XXI

Sob esta perspectiva, é imprescindível salientar que a opinião pública é a principal guardiã da moralidade, dos costumes e das tradições. Logo, a mídia age como mediadora da verdade, porquanto decide qual notícia deve ser mencionada ou receber destaque. Com isso, os jornalistas, inevitavelmente, interferem no curso natural do que é – ou será – considerado um comportamento aceitável, moral ou amoral, correto ou equivocado, verdadeiro ou mentiroso. Nesse ínterim, com o advento da internet, o destino das relações e debates públicos ganharam novas vozes – os influenciadores digitais. Estes, quando participantes do sistema, seja ele corporativista ou apenas interessado na perpetuação das elites, são chamados, por Jean-Jacques Rousseau, de ‘censores’. “A opinião pública é um tipo de lei administrada pelo censor e que ele, como príncipe, aplica somente em casos específicos” e “A censura conserva os modos e a moral evitando a corrupção das opiniões, conservando sua retidão com medidas inteligentes e, em alguns casos, inclusive determinando-as…”, afirmou Rousseau. Para efeito de comparação, lembre-se de um influenciador ou jornalista contemporâneo que possua visibilidade para influenciar diretamente a opinião pública. Feito isso, lembre-se de como ele age e observe se; é autoproclamado detentor da missão divina de salvar a moral da corrupção; sempre afirmar ter razão; é credor da possibilidade de determinar quais opiniões são verdades ou mentiras; obriga pessoas, sob ameaça, a adotarem um pensamento, ou serão bloqueados, silenciados e considerados inimigos; concorda e faz uso da censura, quando lhe fenecia de alguma forma; vê a si mesmo como uma espécie de rei da bola social que habita ou de todas as bolhas do seu espectro político.

Portanto, caso a personalidade em questão tenha tais características ele é um ‘censor contemporâneo’ em razão de agir conforme manda o contrato social de Rousseau, ao invés da prudência ou do ceticismo conservador. Esta personalidade, por carregar traços autoritários e revolucionários, caminha perigosamente no terreno das ideias coletivistas da esquerda. Aproveitar-se da força bruta para coagir a voz contrária e abolir o princípio do contraditório, é considerada uma atitude revolucionária, em função do tornar o debate unilateral. As atitudes citadas são jogadas esquerdistas, como bem apontou Rousseau. Estes comportamentos não diferem-se do famigerado pensamento ‘acuse-os de fazer o que você faz’. Cabe a sociedade distinguir o discurso inflamado e vazio do discurso baseado no princípio cético e prudente do conservadorismo. É necessário trazer o contraditório para o debate público do Século XXI, ou todos seremos lançados na espiral do silêncio pelos príncipes que se julgam donos da internet. O censor fortalece o melhor das convicções coletivas, não das individuais.  Fique tranquilo, não poderão calar tantas vozes, mas você precisa manifestar-se! Ficar em silêncio, fará a voz revolucionária ser transformada em leis… então será tarde demais.

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Jornalista latifundiário de falas.

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