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COLUNA: Só se é traído pelos seus — a infiltração comunomodernista na Igreja Católica (I)

Carlos Júnior

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O fato do Papa Francisco citar Dom Helder Câmara em sua mensagem de Natal passou despercebido para a maioria das pessoas, mas os católicos mais atentos – e devotos – viram e certamente a consideraram um deboche com sua fé. Explico: Dom Helder Câmara era um simpatizante declarado do comunismo, ganhando a alcunha de ‘’arcebispo vermelho’’. Até onde sei, qualquer católico simpatizante ou colaborador do movimento comunista está excomungado automaticamente desde o decreto de Pio XII contra o mesmo. Mas o Papa Francisco não viu nisso o menor problema, pois o seu zelo para com a fé católica é de um desleixo impressionante.

Como a Igreja Católica chegou ao ponto de ter o próprio Papa a elogiar um indivíduo que era um herege confesso? Alguns podem cair no mesmo erro que grande parte da direita brasileira cai e culpar única e exclusivamente o Papa Francisco, como se a cúria romana antes de seu pontificado fosse um primor na observância da Sagrada Tradição da Igreja. É necessário ter a perspectiva de que a Igreja Católica foi infiltrada pelos seus inimigos há algum tempo e esse processo tem atores advindos das mais diferentes origens, embora as raízes intelectuais tenham sido as mesmas. A trama contra a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo é inútil, mas muitos dedicaram e dedicarão suas vidas nessa empreitada.

Para começo de conversa, o comunismo não é o único inimigo da Igreja. Igualmente condenados estão a maçonaria e o liberalismo moral, sendo a primeira uma sociedade secreta envolvida em uma série de acontecimentos grandiosos da civilização ocidental e na luta interminável para destruir o Cristianismo, e o segundo uma doutrina advinda da modernidade que, dentre outras peripécias, expulsou a religião da vida pública.

Prova disso são as inúmeras condenações a ambos de papas como Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e São Pio X. A maçonaria atuou fortemente na divulgação do ideal secular e na separação do poder temporal em relação ao poder espiritual, estando na raiz de todas as desgraças da modernidade. Ela buscou ter os seus na Igreja Católica, pois a percepção era de que as perseguições anticatólicas não a abalavam. Muito pelo contrário: santos e mártires eram criados e faziam a luz da Igreja brilhar ainda mais. A solução era então infiltrar-se no clero e destruir a Santa Igreja a partir de dentro. Um documento da Alta Vendita – uma loja maçônica italiana – datado de 1859 colocava em detalhes os planos de infiltração liberal na Igreja Católica.  

O modernismo teológico, acuado pela ação vigorosa dos papas e do próprio clero, fez-se de morto e deu aos conservadores católicos uma falsa sensação de segurança. Sobreviveu aqui e ali em círculos de intelectuais e clérigos isolados, não parecendo uma força organizada capaz de ameaçar o predomínio dos que eram fiéis à Sagrada Tradição. Mas, após o pontificado de Pio XI – não por sua culpa – os inimigos da Igreja deram as caras e começaram a consolidar uma força política relevante. Era o prenúncio do infame acontecimento que transformou fundamentalmente a Santa Igreja: o Concílio Vaticano II.

O CVII foi marcado pela mudança de posição da Igreja para com o mundo moderno. Ao invés de resistir a ele e converter os que se entorpecem nele, a Igreja – ou A Outra, como dizia Gustavo Corção – preferiu adaptar-se aos seus caprichos. A partir dele a Igreja também admitiu a salvação das almas por outras igrejas e vias que não fossem a Igreja Católica. O novo rito missal, em contraposição ao tridentino, provocou uma série de alterações – e por que não dizer estragos? – na liturgia. O velho humanismo anticristão triunfou solenemente no Concílio com a atuação da ala progressista do clero, que fez de trouxa a ala conservadora e impôs ao catolicismo transmutações nocivas.

E quem eram os papas durante o CVII? Eram os senhores João XXIII e Paulo IV. O primeiro tem uma trajetória bastante obscura, ao ponto de ter sido acusado de pertencer à maçonaria. O segundo era amigo pessoal de Jacques Maritain, um intelectual que inicialmente tinha formação tomista, mas depois ‘virou a casaca’ e aderiu ao modernismo que ele mesmo condenou. Ambos foram responsáveis pela presente crise. Prometeram um revigoramento do catolicismo e garantiram que o CVII seria um sucesso, e o resultado entregado foi um declínio do prestígio da Igreja e uma quantidade enorme de fiéis indo para o protestantismo.

‘’Só se é traído pelos seus’’. A frase atribuída ao poeta alemão Heinrich Heine é perfeita no caso da Igreja Católica. Invadida, modificada e traída por quem deveria defendê-la, ela foi vítima da canalhice demoníaca de uns e da inércia criminosa de outros. Ainda que as portas do inferno não prevalecerão e a Santa Igreja como instituição terrena estará presente até o fim dos tempos, não custa nada lembrar os nomes e as ideias por trás da sua crise contemporânea. E é isso que farei nessa série de artigos.

[Continua…]

Jornalista. Escreve sobre politica brasileira e americana com análises não vistas na grande mídia.