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COLUNA: Joe Biden matou o #MeToo e o feminismo americano – ou no mínimo expôs sua hipocrisia

Carlos Júnior

Publicado

em

AFP/GETTY

O ex-vice-presidente americano e candidato à presidência Joe Biden tem nas costas uma quantidade relevante de acusações de assédio sexual. A mais relevante delas é a de Tara Reade, uma ex-funcionária do escritório de Biden no Senado, que o acusa de ter cometido o dito abuso em um corredor do Congresso em 1993 – quando ele era senador pelo estado de Delaware.

Biden negou todas as alegações. Estaríamos diante de mais um caso de abuso sexual envolvendo um político americano desde o surgimento do #MeToo – um movimento que tomou para si o monopólio no combate ao assédio e agressão sexuais. Estaríamos. A postura do próprio #MeToo, das feministas americanas e das mulheres mais poderosas do Partido Democrata mostra como a duplicidade moral é a marca da esquerda americana e de todos os movimentos que estão sob a sua órbita.

Joe Biden é tudo o que a esquerda americana odeia: homem, branco, rico e poderoso. Com esse perfil e segundo o padrão de julgamento de seus próprios pares, ele é culpado até o fim do devido processo legal e das explicações virem à tona. Não é o que se viu até agora. Nancy Pelosi, Hillary Clinton, Kirsten Gillibrand, Stacey Abrams e tutti quanti saíram enfaticamente em defesa de Biden e não deram a mínima para as mulheres que o acusam. O feminismo jacobino tão corajoso e valente que prometeu não descansar enquanto homens poderosos abusam de mulheres em posição inferior – ou em qualquer caso do tipo – é o mesmo feminismo que se cala quando deveria berrar aos quatro cantos e defender uma mulher que diz ter sido abusada. Isso deixou Tara Reade surpresa, pois as corajosas feministas do Partido Democrata já disseram que acreditam em Biden até tudo ser esclarecido. E olha que ela foi por décadas uma militante democrata e não teria motivação politica ao implodir a campanha presidencial do seu partido.

Comparem a ação do #MeToo em relação a políticos republicanos acusados do mesmo delito e vejam com a coisa muda de figura. O presidente Trump foi acusado de assédio sexual por mulheres com a campanha presidencial de 2016 quase no fim. O juiz Roy Moore, candidato ao Senado pelo estado do Alabama, também. Brett Kavanaugh, indicado de Trump à Suprema Corte, enfrentou a mesma situação – justo na semana em que sua indicação seria votada pelo Senado. Em ambos os casos o #MeToo e o feminismo americano trataram de destruir a reputação dos três. Não esperaram a apuração dos fatos, os depoimentos das acusadoras e as explicações dos acusados. Claro que não, pois dois dos três são políticos filiados ao Partido Republicano e o outro – o juiz Brett – é um constitucionalista adepto do conservadorismo americano em questões como aborto, casamento gay e liberação das drogas. Com seus inimigos o feminismo é implacável em destruir suas reputações. Já quando é com um dos seus, ele se lembra da importância em ouvir o outro lado e esperar a apuração dos fatos. Coerência não é lá muito o forte das militantes feministas.

A análise da questão não depende mais da veracidade ou não da acusação de Tara Reade e das outras mulheres que acusaram Biden. O que de fato importa aqui é o padrão duplo do feminismo em relação ao mesmo fato. A diferença é justamente a das pessoas envolvidas e suas ideologias políticas. Trucidar Trump, Moore e Kavanaugh era o correto a fazer, pois ambos representam o maldito e retrógrado patriarcado religioso. Mas todo cuidado com Biden, pois ele é um anjo progressista comprometido com a pauta da igualdade de gênero. Não importa se ele fez comentários grosseiros ou apalpou bumbuns de tantas mulheres. Não agora que a confusão envolve um dos figurões do beautiful people na política americana.

Tucker Carlson – o jornalista conservador da FOX News que os esquerdistas americanos fogem como o diabo foge da cruz – colocou os pingos nos is ao expor a hipocrisia da senadora Kirsten Gillibrand (D-NY). ‘’Dois anos atrás, Gillibrand queria Brett Kavanaugh, sua esposa e família destruídos. Ele era culpado, ela disse – ela podia sentir. Bem, na terça-feira, Gillibrand teve a chance de responder às alegações – as alegações credíveis – que Tara Reade fez contra Joe Biden. Mesmo se você ainda não viu isso, apostamos que você pode adivinhar qual foi a resposta dela’’. Gillibrand isentou Biden e falou que acredita nele. E Tucker concluiu sendo o mais assertivo possível. ‘’O feminismo institucional, o chamado movimento feminista, é falso. Nunca foi sobre mulheres ou mulheres crentes. Eles não acreditam em mulheres. Eles não se importam com as mulheres. Eles se preocupam com o poder. E é por isso que Gillibrand era amigo de Harvey Weinstein e Bill Clinton. É por isso que ela é amiga de Joe Biden agora’’.

Mas esperar o que de um movimento que tem em seu panteão de deusas ninguém mais ninguém menos que Margaret Sanger – que era uma eugenista declarada, via o aborto como um meio para exterminar as ‘’raças inferiores’’ e discursou em uma manifestação da Ku Klux Klan em 1926?

O feminismo, como todo movimento revolucionário, acredita ter o monopólio de todas as virtudes. Se você é mulher e não é feminista, automaticamente passa a ser traidora da casa. Se você é homem e não reza a cartilha feminista, você é um machista opressor. Como em toda causa revolucionária, vale a máxima ‘’quem não está conosco está contra nós’’. Não importa o quanto o feminismo já causou de dano a sociedade com todas as suas pautas. O que sempre importa é a verborragia ególatra virtuosa.

Repito: não sei se Joe Biden é culpado ou não. Mas sei que o seu caso foi suficiente para jogar o #MeToo em um profundo descrédito. Se ele não matou o feminismo americano de vez, ao menos coube a ele a tarefa de expor a sua hipocrisia. Logo ele.


Referências:

  1. https://thehill.com/homenews/campaign/495588-tara-reade-says-she-was-marginalized-discounted-by-democrats-who-defended
  2. https://pjmedia.com/election/rick-moran/2020/04/30/tucker-carlson-destroys-senator-kirsten-gillibrand-and-the-feminist-movement-n387022
  3. https://www.foxnews.com/politics/republicans-tight-senate-races-say-dems-enforcing-double-standard-sexual-assault
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Jornalista. Escreve sobre politica brasileira e americana, com análises não vistas na grande mídia.

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