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COLUNA | Deus nos proteja dos escravocratas

Julliene Salviano

Publicado

em

Divulgação | Conexão Política

Nas últimas décadas, principalmente a partir dos anos 1970, o legado histórico da Princesa Isabel vem sendo contestado e ocorre uma tentativa de apagar e até manchar sua memória junto ao povo brasileiro com inúmeras inverdades. Sobretudo quando o assunto é o símbolo de “Redentora”.

Tenta-se desconstruir a imagem da Princesa para construir em seu lugar uma valorização da trajetória de Zumbi dos Palmares.

Reconhecer o mérito de Isabel, que trabalhou energicamente pela abolição em sua vida pública não diminui o mérito de outros abolicionistas importantíssimos como: Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, André Rebouças, Castro Alves e muitos outros que tiveram também seu papel nessa página da nossa história.

Lembro aqui que Leopoldina, outra mulher que governou o país em momento decisivo, ao chegar no Brasil se espantou com a barbaridade que era a escravidão por aqui. Vinda de uma outra realidade, ela já falava sobre a abolição junto a Pedro I e José Bonifácio. E é conhecida a história da carta que Pedro I deixou para Pedro II, onde lhe falava sobre abolição.

Em 13 de maio de 1888, dava-se fim a escravidão que durou entorno de 300 anos no Brasil.

Toda a economia do país baseava-se e dependia da mão de obra escrava.

Ainda hoje, 132 anos depois, vemos em nossa sociedade as marcas de uma abolição inacabada.

Não bastava extinguir o cárcere, era necessário dar dignidade e rumo a vida dos ditos “ex-escravos”.

Muitos brasileiros ainda ignoram ou creem ser lenda que a Princesa Isabel e seu pai Pedro II planeavam indenizar o ex-escravos e dar-lhes terras e formas de subsistência.

A Princesa já falava até em educação, o que na época era algo raro, escaço e reservado a uma elite.

Em 2007 veio à tona a carta da Princesa endereçada ao Visconde de Santa Victória, braço direito do Barão de Mauá, que transcrevo aqui:

11 de agosto de 1889 – Paço Isabel

Corte midi

Caro Senhor Visconde de Santa Victória

Fui informada por papai que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas.

Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil.

Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o nosso Brasil!

Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos, realizando uma grande e verdadeira reforma agrária a quem é de direito.

Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seus bens, o que demonstra o amor devotado do Senhor pelo nosso Brasil. Deus proteja o Senhor e todo a sua família para sempre!

Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba, porém infeliz, que o Senhor e seu tão estimado sócio, o grande e mui querido Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos maldosos ingleses de forma desonesta e absolutamente corrupta!

A queda do Sr. Mauá significou uma grande derrota para o nosso Brasil!

Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar e realizar mais um pouco.

Pois as mudanças que tenho em mente, como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos e que seus sustentos sejam realizados de forma honrosa.

Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino!

Se a mulher pode reinar também pode votar!

Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe!

Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.

Muito de coração

ISABEL

Ao ler essa carta, de poucas linhas, mas muito conteúdo, percebesse que um grupo trabalhava em prol do Brasil. Algo que nesses 131 anos de República pouco vimos. A importante carta também faz cair por terra aquela história inventada – para manchar a imagem do antigo imperador – sobre a rivalidade existente entre D. Pedro II e B. Mauá.

Nos revela a intenção de indenizar os ex-escravos, realizando uma reforma agrária em seu benefício para que da terra tirassem seus proventos. Além disso, nos deixa a par de seus próximos planos  “Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino!”. Claro que tais ideias jamais seriam aceitas por parte a elite escravocrata da época como nos revela a própria Princesa “Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil” .

Por isso veio a República (que costumo chamar de Ré-pública) em 15 de novembro 1889 e levou embora para o exílio o Imperador, a Princesa e o futuro próspero do Brasil.

Fomos relegados a governantes que governavam para si e para os seus, atendendo aos interesses de poucos e ao caos político que perdura por toda a história do país pós Império.

Os interesses de poucos sequestraram o futuro de muitos.

O Golpe 1889 inaugurou a República do golpe, cuja história está repleta de reveses.

Existe uma história que diz que Pedro II mesmo sendo exilado deixou aqui dois terços de sua fortuna para que a República indenizasse os ex-escravos. Alguém pode imaginar qual seria a nossa realidade se deixassem que essa indenização ocorresse? Seria essa a primeira página de corrupção da história do Brasil? Onde foram parar o dinheiro do Visconde de Santa Victória e os ⅔ de Pedro II? Infelizmente estes e seus descendentes foram largados a própria sorte e as consequências disso vemos até hoje.

É triste e simbólico que neste 13 de maio de 2020 estejamos vivendo momentos no Brasil que ameaçam a nossa liberdade individual gradativamente. Infelizmente, ainda hoje o país sofre nas mãos de uma elite que descende desses escravocratas e que não nos liberta de suas garras maléficas que emperraram o país. 

Se pudesse voltar no tempo, aconselharia ao Imperador e a Princesa a não deixarem o país, pois o sangue que ali foi poupado vem sendo derramado há 131 anos em solo Nacional.

Disse José Bonifácio: “O Brasileiro será o novo ateniense se não cair na tirania de estado”.

Infelizmente, senhor, estamos indo por esse caminho. 

Gestora Pública, paisagista e assessora de imprensa.

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