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COLUNA: A inversão revolucionária da realidade

Carlos Júnior

Publicado

em

Luis Quintero | Unsplash

Apontar qual o veículo de comunicação mais desonesto entre os existentes no Brasil é tarefa inglória – todos os componentes da chamada grande mídia trabalham com afinco para tal posto. Mas a Folha de S. Paulo parece se destacar no meio de todos eles. Quem não lembra da matéria vergonhosa e desesperada às vésperas da eleição presidencial de 2018 incriminando falsamente o então candidato Jair Bolsonaro por supostos disparos em massa no WhatsApp? Essa aula de pseudojornalismo demonstrou inequivocamente o descompromisso da Folha com a verdade.

Mas, como a cara de pau não tem limite em solo tupiniquim, a Folha resolveu ir além. Em uma matéria publicada em seu site, alguns advogados lamentam a prisão do jovem que incitou no Twitter o assassinato do presidente Bolsonaro. Também foi alvo da matéria a Lei de Segurança Nacional, usada pela PM de Minas Gerais para embasar a prisão. Criada em 1983 durante o regime militar, a LSN estabelece como crime ações que ‘’lesam ou coloquem em perigo a pessoa dos chefes dos Poderes da União’’.

Pois bem, a Folha que choramingou pela prisão do jovem antibolsonarista é a mesma que publicou matérias a favor da prisão do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) em caso bastante semelhante. O que muda é alvo: enquanto esse falava do STF, aquele tratava do chefe do Executivo. No caso do hater tagarela a prisão foi ilegal e abre um precedente perigoso contra a liberdade de expressão; no do deputado a ação foi correta e o regime democrático não admite críticas aos sacrossantos togados. Essa é a lógica que impera nas redações de jornais e na classe política brasileira.

Tal inversão da realidade é marca característica de um fenômeno que merece maiores considerações para a compressão não apenas desse caso, mas da situação do Brasil e do mundo. Estou falando da mentalidade revolucionária.

A mentalidade revolucionária é um estado espiritual em que um indivíduo ou um coletivo acredita ser portador de um modelo futuro de sociedade perfeita, e para implementá-lo é preciso destruir todos os valores e regras morais vigentes e concentrar todo o poder em suas mãos. Como portador de um futuro hipotético ainda não palpável, o revolucionário coloca-se acima de qualquer julgamento por seus atos, pois tal julgamento é embasado nos padrões da atual sociedade, oposta a futura da qual ele é seu fiel representante. Isso explica o porquê das monstruosidades cometidas pelos revolucionários em qualquer lugar em que esses tenham logrado êxito em seus planos – e também em como não há o menor peso na consciência revolucionária por esses crimes.

Desde o século XV o movimento revolucionário mundial destina-se a mudar o mundo e destruir todas as suas características em nome de um futuro idealizado. As facetas são inúmeras. O liberalismo expulsou Jesus Cristo da vida pública e inaugurou o império do secularismo na política. O comunismo tentou resolveu pela via econômica todas as misérias humanas, e tudo o que conseguiu foi a multiplicação delas. O progressismo buscou – e até hoje busca – reinterpretar a história através dos conceitos de oprimidos e opressores. Em todas as suas variantes o movimento revolucionário é predominantemente anticristão e inimigo dos princípios basilares da civilização ocidental.

O germe da mentalidade revolucionária está presente tanto na esquerda quanto na direita. Vejam, por exemplo, o sr. João Amoêdo: por defender a liberdade de mercado e as privatizações, ele é colocado no mesmo bolo de políticos como Jair Bolsonaro ou Paulo Eduardo Martins. Mas a sua plataforma cultural em nada deixa a desejar ao progressista mais convicto, e uma vez no poder ele implementaria as mutações revolucionárias de forma mais rápida que os próprios esquerdistas. Há, sim, uma parte contrarrevolucionária na direita, mas ela não é a única neste espectro político.

Hegemônica e incontestável, a mentalidade revolucionária altera o julgamento das coisas e o senso das proporções. Ora, roubar, matar e mentir são comportamentos errados para a maior parte da população cristã e conservadora, mas para o revolucionário são perfeitamente normais e aceitáveis desde que atenda aos anseios da revolução. Antonio Gramsci queria que a esquerda mudasse os valores do povo e pervertesse a moral tradicional, colocando no lugar as normas do Novo Príncipe, no caso o Partido Revolucionário.

Querem um exemplo? O julgamento do Mensalão. Grande parte dos réus alegou não cometer atos ilícitos para benefício próprio, mas fazer em nome do Partido – no caso o PT. Ou seja: tudo o que é bom para o partido é algo certo, o que for ruim é algo errado. Mesmo que o ‘’bom’’ abarque uma série de crimes ou atos reprováveis.

E assim se explica a dualidade imperante na mentalidade revolucionária. Se algo prejudica os inimigos da revolução, é válido e até mesmo desejável. Caso contrário, merece o mais vívido repúdio. A LSN contra um deputado bolsonarista é a maior expressão de fortalecimento da democracia. Aplicada a um militante esquerdista, é um precedente perigoso advindo da ditadura militar. Eis a inversão mais cínica possível da realidade diante dos nossos olhos.

Foto: PersonaCinema / Reprodução

Jornalista. Escreve sobre politica brasileira e americana com análises não vistas na grande mídia.