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COLUNA: Nuances sobre o caso de Andrew Cuomo, governador de Nova York

Os acontecimentos recentes são tão destruidores que nem os próprios aliados estão dispostos a defendê-lo.

Carlos Júnior

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O governador de Nova York, Andrew Cuomo, está perto de ver a sua carreira política ser enterrada de vez. Lideranças locais e nacionais dos dois grandes partidos pedem a sua renúncia, e no caso dos políticos nova-iorquinos já se discute abertamente a instauração de um processo de impeachment contra ele.

Motivo é o que não falta. O governador foi acusado por diversas mulheres de assédio sexual, algumas delas foram ou ainda são funcionárias de seu gabinete. Lindsey Boylan, ex-assessora do governo de NY para assuntos econômicos, disse que Cuomo a teria beijado sem sua permissão. Detalhe: Boylan é reconhecidamente uma militante progressista filiada ao Partido Democrata. Não faria sentido mentir para prejudicar um dos figurões da sua própria agremiação política – justo no momento em que ele virou o antagonista máximo do ex-presidente Donald Trump.

Além das acusações de assédio, Cuomo tem na conta uma suposta omissão nos dados estaduais da COVID-19. A procuradora-geral do estado de NY, Letitia James, divulgou um relatório apontando que no começo da pandemia o número de óbitos pode ter sido o dobro das estatísticas oficiais. Melissa DeRosa, secretária do governador, admitiu a retenção dos dados. A justificativa foi que os dados reais seriam aproveitados judicialmente por promotores federais na abertura de investigações contra a administração Cuomo e politicamente pelos republicanos. Enquanto pessoas morriam ou perdiam seus parentes, o governo democrata de NY queria salvar a própria pele e pensava nas consequências políticas das mortes. Não há como adjetivar uma indecência dessa sem baixar completamente o nível.

Pela relevância do cargo e atenção atraída no período inicial da pandemia, Cuomo não passaria despercebido – e de fato não passou. Mas a imprensa pouco falou sobre seus podres, dando enfoque quase total às acusações de assédio. Óbvio que o denuncismo feminista rende mais dividendos políticos à causa esquerdista que apontar os erros na gestão da pandemia, com a esquerda tendo a oportunidade dourada de fazer aquilo que é a sua especialidade: limpar-se na própria sujeira atribuindo-a aos seus inimigos. Se um governador do maior estado americano apalpa o bumbum das subordinadas, a culpa é da cultura machista – jamais da sacrossanta revolução sexual protagonizada pela new left – que o encoraja e faz do ato uma coisa orgulhosa. A solução para o assédio, nesse caso, seria mais feminismo, ainda que o emparedado da vez seja um fiel aliado do movimento.

Na imagem, o 56º governador de Nova York, Andrew Cuom, membro do Partido Democrata. — Foto: Gates Foundation ton Reimagine Education

Cuomo achou linda a ofensiva do #MeToo para cima de inúmeros políticos republicanos. Roy Moore, ex-juiz e candidato do Partido Republicano ao Senado pelo Alabama, foi alvo de inúmeras denúncias sem pé nem cabeça. Ele aprovou a desmoralização completa de Moore. Brett Kavanaugh, juiz da Suprema Corte americana, foi alvo de uma tentativa de assassinato de reputação das mais sórdidas que os Estados Unidos já viram. O Partido Democrata deu palanque às acusadoras e tentou melar sua indicação de todas as maneiras possíveis. Quando o seu nome foi confirmado, Cuomo disse ter sido um dia triste para o país e que acreditava na palavra das supostas vítimas. Pois bem, umas das mulheres que acusou o juiz Kavanaugh confessou ter mentido para prejudicá-lo. Cuomo nunca se retratou ou fez mea culpa em relação ao caso. Não deixa de ser irônico que um dos maiores entusiastas do #MeToo esteja passando pela mesma situação indecorosa.

No caso da omissão dos dados de mortos e infectados por COVID-19 a boa e velha hipocrisia esquerdista é visível. Cuomo posou como herói de gibi no começo da pandemia, virou símbolo de empatia e referência no enfrentamento da doença. A grande mídia americana, que é mera extensão do Partido Democrata, vendeu uma imagem santificada do governador. E claro, colocou Trump e Cuomo em lados opostos, com o ex-presidente sendo tachado de todos os adjetivos usados contra Jair Bolsonaro aqui no Brasil. Além dos resultados de NY serem horrorosos no combate ao coronavírus, surge essa nova acusação.

Andrew Cuomo é um hipócrita e nunca foi flor que se cheire, mas os acontecimentos recentes são tão destruidores que nem os seus próprios aliados estão dispostos a defendê-lo. Seu caso é revelador e mostra como os ícones esquerdistas pregam uma coisa e realizam outra. Incapaz de medir a própria moralidade, eles se acham autorizados a dar pitaco sobre a moralidade alheia. É um prodígio de hipocrisia.

Quando o ex-presidente Trump ficou doente e um terço dos americanos torcia pela sua morte, ficou evidente a podridão espiritual da América. A queda vertiginosa da religiosidade nos EUA é a causa inequívoca desse processo. O Cristianismo, que era predominante na sociedade e estabelecia os valores da mesma, foi atacado por inúmeros lados a ponto de torná-lo uma experiência individual, sem a permissão de qualquer demonstração pública de fé. A situação chegou no ponto em que igrejas são proibidas de abrir com a desculpa da pandemia, mas o funcionamento de uma boate gay não encontra nenhuma restrição imposta pelo Estado.

Nenhuma cultura sobrevive sem religião. O secularismo é uma mentira tosca que só os imbecis acreditam. Mas nem por isso ela deixa de causar estragos, e nos EUA eles são imensos. Sem as inibições morais advindas da religiosidade e guiado pelo velho hedonismo, o indivíduo não sente vergonha alguma em fazer o que dá na telha. Apalpar o bumbum das funcionárias ou jogar o número de mortos em seu estado para debaixo do tapete são coisas obviamente repugnantes. Mas em um ambiente secularizado tais práticas encontram um terreno fértil para crescer. O sr. Cuomo é um produto desse ambiente.

Jornalista. Escreve sobre politica brasileira e americana com análises não vistas na grande mídia.