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A esquerda em vertigem

Uma análise crítica do documentário ‘Democracia em Vertigem’, de Petra Costa.

Leandro Ruschel

Publicado

em

Divulgação | Conexão Política

Recentemente foi lançado no Netflix um “documentário” assinado pela empresa, “A Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, que narra a peça e aparece entrevistando vários integrantes do PT que tiveram papel de destaque no processo de saque do país.

Petra não esconde o fato de ser uma militante petista, além de herdeira de uma família dona de construtora envolvida em escândalos de corrupção.

Mais do que isso. A mãe da cineasta hospedou em Paris, por mais de oito meses, a filha de Lula, Lurian.

Seu filme não é sobre a democracia brasileira, mas sim sobre a visão dos acontecimentos do ponto de vista de uma militante de esquerda. Nesse sentido, temos uma peça de propaganda política.

Chama a atenção o fato da Netflix se prestar ao papel de patrocinar tal peça de propaganda – apesar de não ser uma surpresa. Pois, praticamente todas as grandes empresas da internet adotam uma agenda “progressista”.

Vejam a diferença de tratamento entre o documentário 1964 do Brasil Paralelo, hostilizado por toda a mídia mainstream, chegando ao ponto de ser censurado até pela rede Cinemark. Já a peça de propaganda petista, ganhou até indicação do New York Times, como um dos melhores “filmes” do ano, contando com ampla aclamação na imprensa.

Outro ponto que chama a atenção é o registro dos bastidores de momentos chave da história – como a prisão de Lula; a sua indicação frustrada ao ministério; o acompanhamento da votação de Impeachment por Dilma, e etc. Todas essas imagens foram gravadas em alta qualidade por profissionais contratados pelo partido.

A esquerda sabe que a história em si não importa. O que de fato importa é controlar como a história é contada – ajustando a narrativa às necessidades do movimento.

O roteiro de Petra consegue alcançar bem esse objetivo, no qual utiliza técnicas de desinformação. Para ser efetiva, a desinformação depende de traços verdadeiros (o sistema sempre foi corrupto) numa história mentirosa (não havia como governar sem se envolver com a corrupção) – além de não combater uma verdade que já está consolidada.

Por exemplo: não é possível enganar o público afirmando que não houve corrupção por parte do PT. O rombo foi grande demais. São bilhões e bilhões desviados; centenas de pessoas envolvidas que confessaram e foram presas; milhares de documentos que provam a transferência da montanha de recursos no propinoduto das construtoras. A Petrobras quebrou, assim como a Eletrobras e o próprio país. Não há como esconder o fato.

Nesse caso, a narrativa adotada é a do partido que queria fazer o certo, mas foi engolido por um sistema corrupto que sempre existiu e acabou transformando as virgens petistas em prostitutas.

A injustiça estaria em apenas os petistas serem punidos, por práticas que sempre existiram. Aí, aparece a segunda desinformação: eles teriam sido punidos porque resolveram fazer “justiça social” – acabando com a fome e diminuindo a pobreza.

No contexto aplicado, a “elite” não poderia tolerar tal coisa e se organizou para dar um golpe no governo “democrático” e “popular” – resultando no Impeachment e depois na eleição de um presidente “totalitário”. Eis o resumo da peça de propaganda.

Vamos então restabelecer a verdade:

 

  • Lula nunca lutou pela “democracia” como foi informado no “documentário”. Ele liderou algumas greves, mas conforme relato do filho do delegado que o prendeu, Romeu Tuma Júnior, Lula não era apenas um informante da polícia – passando informações sobre os movimentos de esquerda, mas também fazia o jogo das montadoras nas greves do ABC. Sem contar que os grupos de esquerda da época não lutavam por um regime democrático, mas sim pela instalação da ditadura do proletariado. Enquanto estava “preso”, Lula dormia no sofá do delegado Tuma, escolhia o que iria comer e podia receber visitas quando quisesse. Na verdade, Lula era visto pelo establishment como uma aposta segura na fase de redemocratização do país – alguém que ousaria. 

 

  • PT e Lula nunca foram limpos. Luiz Maklouf Carvalho, no livro “Já Vi Esse Filme”, conta como na década de 90 o compadre de Lula, Roberto Teixeira, vendia serviços de “consultoria” para prefeituras controladas pelo partido para recálculo de ICMS, através de uma empresa chamada CPEM. Paulo de Tarso Venceslau, fundador do partido, descobriu o esquema e fez uma denúncia à executiva nacional, na época controlada pelo grupo que hoje está preso, esteve preso ou foi investigado: Lula, José Dirceu, Paulo Okamoto, Gilberto Carvalho (entrevistado por Petra) e José Genuíno. Resultado? Paulo de Tarso Venceslau foi expulso, Roberto Teixeira (recentemente condenado por lavagem de dinheiro) permaneceu no partido e o jornalista que escreveu o livro passou a ser perseguido pela esquerda. Alguns anos depois, tivemos a morte de Celso Daniel, que escancarou os esquemas de corrupção do partido com empresas de ônibus e de recolhimento de lixo. De uma certa forma, os esquemas das primeiras prefeituras do PT foi um grande ensaio para o que o PT fez ao chegar na presidência.

 

  • Quem tirou milhões da pobreza foi a economia, não Lula. Quando Lula assumiu a presidência, o Brasil já havia enfrentando uma série de crises internacionais seríssimas, como a crise da dívida de emergentes no final da década de 90 e o estouro da bolha das ponto com na virada do milênio. Várias reformas foram produzidas a partir do início dos anos 90, que aumentaram a eficiência da economia, entre elas o Plano Real, as privatizações e o PROER, que saneou o sistema bancário. Lula assumiu no momento que foi iniciada a recuperação da economia global – puxada pelo crescimento cavalar da China e seu apetite pelas commodities brasileiras. O mérito de Lula foi ser pragmático na economia – o que possibilitou a ele comprar a felicidade geral da nação, com bolsas para os mais pobres e para os mais ricos (BNDES). Ali se perdeu a oportunidade de fazer uma reforma da previdência e outras que resolvessem deficiências de longíssimo prazo. Lula resolveu surfar na onda populista e produziu a expansão de gastos públicos acima do ritmo do PIB por anos a fio. Quando a melhor fase da economia global, em décadas, acabou em 2008, no final do seu governo, ele resolveu empurrar o problema com a barriga – expandindo o crédito. Dilma, o poste de Lula, dobrou a meta e baixou juros na canetada; cortou tarifas de energia de forma irresponsável e iniciou a política de pedaladas fiscal – o que fez a dívida pública quase dobrar em poucos anos e a inflação acelerar – produzindo as bases para a maior crise econômica da história brasileira, tendo como único objetivo garantir a reeleição. O arrocho pós-eleitoral confirmou o estelionato da sua campanha e foi o estopim para os protestos massivos que aconteceram a partir de 2015.

 

  • O Impeachment representou a satisfação da vontade popular. Petra fez um grande esforço para esconder na sua peça de propaganda o tamanho das manifestações pelo Impeachment. Imagens desses protestos são sempre de ângulos fechados, mostrando poucas pessoas. Como num “documentário” sobre o Impeachment, não são apresentadas imagens da Paulista com mais de um milhão de pessoas, com milhões de outros brasileiros nas ruas, em centenas de outras cidades pelo país? Pode haver algo mais democrático do que milhões de pessoas nas ruas, de forma pacífica e exigindo uma mudança de governo que saqueou o país?

 

  • A elite não queria o Impeachment. Só embarcou no processo quando ele não tinha mais volta. Palocci, um dos braços direitos de Lula, relatou em depoimento na CPI do BNDES que o PT garantia a liberação de R$ 500 bilhões em recursos para as empresas amigas, que em troca alimentaram o propinoduto para o partido e aliados. Ora, boa parte da elite nacional amava o PT e não tinha nenhum interesse em vê-lo fora do poder. Quando o dinheiro acabou para o andar de baixo e a pressão popular chegou a níveis irresistíveis, é que a elite se movimentou para produzir o Impeachment sob risco de ver implodir todo o sistema. Além disso, boa parte dos próprios políticos de “direita” que são retratados na peça como conspiradores contra Dilma, foram também presos, como ocorreu com Eduardo Cunha,  Temer e vários outros.

 

  • O PT nunca esteve interessado em “democracia”. Ou pelo menos o próprio termo tem um significado diferente para os petistas e para a esquerda em geral. Eles acreditam que democracia é equivalente à “justiça social”. Ou seja, um regime democrático representativo não seria aquele formado pelo arranjo de instituições que buscam criar regras de funcionamento da sociedade e garantam a sua aplicação, criando o máximo de liberdade e prosperidade na base da discussão aberta de propostas entre representantes legítimos da sociedade civil. Mas sim a existência de um grupo autointitulado representante dos fracos e oprimidos – concentrando poder para impor (à força) uma mudança social profunda que garanta a “igualdade” absoluta. O PT, PSOL, PCdoB e afins não escondem a sua admiração pelo modelo venezuelano – que repetiu o mesmo desastre humanitário observado em qualquer outro lugar e circunstância na história humana, onde o projeto marxista foi implementado. Se eles não conseguiram implementar o mesmo modelo no Brasil, não foi por falta de vontade, mas sim falta de condições materiais. Foi essa “democracia” que o país perdeu – para sofrimento de Petra e seu grupo.

A peça de desinformação não serve apenas para justificar os crimes da quadrilha petista, mas para reconfortar os militantes do partido, dando argumentos para que eles possam continuar apoiando os criminosos.

Jonathan Haidt, no ótimo “The Righteous Mind”, explica que as pessoas têm um comportamento emocional em relação às suas posições políticas. Uma pesquisa que utilizou equipamentos de ressonância magnética mostra como ser confrontado com notícias negativas sobre políticos que você apoia, acaba gerando reações emocionais negativas, sendo que a apresentação de justificativas para tal comportamento geram prazer muito similar à utilização de drogas.

Em outras palavras, as pessoas estão predispostas a defender suas posições políticas – utilizando para tal qualquer desculpa esfarrapada e facilitando o trabalho da propaganda, como o produzido por Petra.

Em se tratando de esquerda, há ainda um agravante. O que define a mentalidade “progressista” é exatamente o desafio à ordem estabelecida. Um esquerdista usualmente acredita que a atual estrutura da sociedade é fundamentalmente injusta e precisa ser modificada de forma radical e profunda. Nesse caso, a ordem vigente precisa ser destruída para que uma nova, mais justa, seja criada. Ora, a destruição de uma ordem estabelecida de forma radical vai requerer que as regras estabelecidas passem a ser desrespeitadas; sejam vigentes pelo costume ou definidas em lei.

Esquerdistas radicais vão mais longe. Eles acreditam que as regras estabelecidas são instrumentos de opressão – utilizados pelos poderosos contra os desprovidos de recursos. Logo, o crime passa a ser o caminho revolucionário natural. Por isso, a insistência dos membros da quadrilha petista em afirmar que tudo que fizeram foi pelo partido e não para benefício pessoal – o que é uma grande balela, mas se enquadra na mentalidade revolucionária. Para uma pessoa com um senso moral normal, os crimes cometidos pelos petistas são óbvios. Mas para um esquerdista, cujo único compromisso moral é a revolução, como afirmava Lênin, os crimes cometidos em nome do projeto têm o efeito oposto: demonstra o comprometimento dos criminosos com a mudança profunda da sociedade.

De uma certa forma, o “documentário” de Petra está intimamente ligado com o episódio da invasão dos celulares de Sérgio Moro e de procuradores da Lava Jato, com posterior divulgação das conversas entre eles por um site controlado por membros do PSOL, com o objetivo de “provar” a falta de isenção do juiz ao condenar Lula.

A mesma estratégia de desinformação é utilizada: ao selecionar trechos de conversas, sem contexto, fica muito fácil manipular a opinião de quem recebe a informação. Sem contar o fato de tais mensagens terem sido editadas.

Mesmo assim, tudo que foi revelado até agora não sugere qualquer comportamento impróprio de Moro ou dos procuradores. Ainda mais levando em consideração a complexidade do caso e o fato deles estarem fazendo justiça contra uma organização política multipartidária, multibilionária e com ramificações em todas as esferas do poder.

Mas isso não importa. Como Haidt mostrou, qualquer pessoa QUER utilizar desculpas para justificar a manutenção da sua crença num projeto político. Além disso, tanto a abordagem do “documentário” quanto da invasão dos celulares e o circo midiático criado a partir dela servem para colocar dúvida na mente daqueles que se encontram no centro do espectro político – diminuindo o apoio líquido à operação que desbaratou o esquema criminoso.

Seria irônico, se não fosse hipócrita, a defesa da observância de um formalismo absoluto em procedimentos judiciais por quem considera a justiça uma ferramenta de opressão e manutenção de um status quo desigual. Mas essa é uma outra lição dada pelos revolucionários marxistas: a utilização da moral “burguesa” contra os burgueses. Já que eles acreditam nas leis, não poderiam desrespeitá-las nem um milímetro sequer no combate contra os revolucionários – enquanto estes têm como o único princípio moral fazer avançar a revolução -, podendo então mentir, roubar, matar e produzir genocídios para tal fim. Em outras palavras, a luta é assimétrica.

Os efeitos provocados pela propaganda petista podem ser efetivos para manter a coesão da sua militância, mas fora desse círculo a influência é limitada, justamente pelo fato da internet ainda ser livre e as pessoas terem acesso às informações fora da extrema-imprensa. Por isso mesmo que a esquerda mundial passou a ter como principal objetivo a censura nas redes. Mas isso é assunto para um próximo artigo.


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Especialista em investimentos. Apaixonado por filosofia e ciência política. Empreendedor. Pai. Admirador da excelência. Conservador.

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