A anti-intelectualidade e os espaços vazios

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Anos a fio foram, nos meios acadêmicos, da hegemonia que persegue, oculta e joga seus inimigos no ostracismo. Anos de proselitismo em sala de aula e de culto aos professores e intelectuais cujos nutridos de suas ideologias prontas e teses questionáveis não sabem mais fazer um juízo do real. Até que as ciências humanas  caíram no escárnio e, em parte, na futilidade. E as ciências sociais sofrem em muito com as metodologias de análise socioconstrutivistas.

Do outro lado, na direita, alguns se acostumaram a pensar que a Filosofia e a Sociologia (para dar só dois exemplos de disciplinas) se tratam de estudos acerca do que não é bom nem útil ou algo como um remediador inebriante para fins recreativos – ou coisa de intelectual de escritório.
Mas não é bem assim. Se o método aplicado pela esquerda deformou essas também ciências, daí não se deduz que elas são inúteis e ruins per se. Apenas que precisam ser reavivadas para que volte a servir como forma de apreensão e/ou sistematização de valores que formam a racionalidade humana.

A fim de não ser a crítica seletiva, deve-se notar que a descredibilidade para com as “humanas” está presente também na retórica progressista, no entanto, com outros objetos e objetivos espantalhosos, como pensar que a ciência empírica superou a Filosofia: medo de quem acha que toda investigação que não segue o “método científico” está errada, pensamento este que leva tudo por fora ao status de religião.

Apesar de ter sido na verdade a extrema-esquerda a afastar mais ainda – o que a modernidade em geral também fez – essas ciência das exatas e da objetividade, para fugir de responsabilidade e deixar tudo boiando na abstração, não significa que as ciências sociais e humanas, mesmo com naturezas diferentes, não dialoguem com as exatas (na Filosofia real, por exemplo, há o estudo da Lógica, portanto, da matemática; nas ciências sociais há coleta de dados empíricos; e por aí vai).

Para se atentar, o bom método científico respeita a natureza do meio analisado e a natureza da disciplina que tem de ser compatível ao primeiro. Isso preservando a seriedade e não relativizando senão apenas a relatividade, como as ciências de Einstein, Newton, Euclides, Schrödinger, faz as ciências – mesmo com metodologia e natureza diferentes – de Eric Voegelin, Gilberto Freyre, Camões (por quê não?), Aristóteles, Platão, Mário Ferreira dos Santos e tantos mais que analisaram ou propriamente construíram a riqueza dos saberes humanos.

Reiterando o oposto que a mentalidade pós-modernista diz, tais conhecimentos podem sim vir de princípios objetivos e, portanto, podem ser aplicados no mundo prático, mas por geralmente serem de valor não quantitativo, mas qualitativo, devem ser bem analisados e vividos, para serem provados e aprovados porque implicam, como a filosofia ou a religião, num conhecimento que o homem levará consigo, formando-o. Diferente de um livro com a Teoria da Relatividade.

Na retórica “conservadora”, o apelo é menos acadêmico e mais prático, mas não menos cretino. O medo circunda a ideia de que teses e intelectualidade interferem negativamente na vida do cidadão comum, estes não querem saber disso.

Essa é uma possibilidade que anda junta com a possibilidade de eventualmente um cidadão normal agir ilegitimamente: um erro. Mas, ora, desde que o mundo é mundo o chamado “cidadão comum” quer que seus filhos estudem, vão à universidade, porque sempre viram, talvez até mais do que os ditos intelectuais, a virtuosidade do Conhecimento com ‘c’ maiúsculo. E dizer autoritariamente o que o cidadão comum, de bem, quer ou não, como fazem esses anti-intelectuais sem ouvi-los, vejam só, é coisa de intelectuais de escritório, mas para a sorte dos primeiros a soberba e a estupidez não são elitistas. ‘Um caso clássico de quando os opostos se mimetizam e, no final das contas, viram tudo a mesma coisa, só muda o objeto da crítica.’

A consequência disso tudo foi um número muito grande de conservadores dispostos a não irem às universidades (ou não continuarem lá), para não serem deixados de lado, para não ouvirem baboseiras, para não serem coagidos etc. Sem os conservadores, as universidades ficaram com um vácuo de responsabilidade e vácuo literal, onde quem foi suprir este foi a esquerda.

E assim o “conservador” brasileiro falhou e falha em conservar um dos maiores legados civilizacionais, as instituições que guardam e servem ao conhecimento. Falta do que hoje chama-se de “ocupar espaço”. E ocupar não é invadir, vandalizar, inviabilizar os estudos de outrem, militar ideologia, mas é tão somente desenvolver material intelectual, com artigos, livros, teses etc. – a salvaguardar a boa herança.

Não precisa de muito esforço para concluir que isso é também uma das causas de um país (em parte) conservador ter uma intelectualidade extremamente de esquerda. Foi esse vácuo que ajudou a deformar as ciências supracitadas e fazer um círculo vicioso de mau-ensino-maus-alunos-doutrinação.

Os resultados refletem-se no tempo. As tantas instituições civis com os nomes de conservadores do passado foram abandonadas nas mãos da esquerda pelos novos conservadores, que mal-ensinados pelos anteriores, parecem ainda não saber conservar. Como também alguns veículos de mídias que tiveram conservadores como fundadores, hoje assumem posições diferentes.

Essa anti-intelectualidade despreza a organização culta, despreza o valor do estudo e da tradição e nada fará senão reclamar na internet do que ocorre no mundo real, o que para um conservador é, paradoxalmente, uma ação meramente revolucionária.

Nada se conservará sozinho e os verdadeiros conservadores sabem disso. Não vai ser fácil; vão ser postos de canto; vão ser xingados. Mas os que pararam de reclamar e foram agir já estão a fazer bem o que a herança pede.

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